26/10/14

O último

- Vem almoçar comigo?
- Não vai dar.
- Tudo bem.

(...)

- Aqui, eu vou sim. Ainda posso?
- Claro, estou esperando você.

O vi entrando pelo portão pela milésima vez em nossas vidas. Um bilionésimo beijo no rosto por receio de não sei o quê e um  abraço apertado, na cintura, de um braço só. Fechou o portão atrás de si e me acompanhou pelo corredor.

Como se o tempo não passasse, ele ainda era meu par. Sentei-me perto enquanto ele comia. Levantamos e enquanto eu escovava os dentes ele ficou na porta do banheiro, mexendo no meu cabelo. Era um ritual. Me sentia confortável.

Eu não bebia, mas abrimos uma cerveja juntos, na minha casa, pela primeira vez.

- Ceres! É você? Meu Deus! Foram quantos anos?
- Sim tio, sou eu. Foram 14 anos! Passou rápido, né?
- Sim... nossa! Me conta, quem é aquele?
- É o namorado dela. - interviu meu pai.
- Cuida dela, rapaz! - disse meu tio, batendo no seu ombro.

Olhei para o chão.

Na sala, me acolhi no seu braço estendido e coloquei os pés em cima do sofá. Ás vezes ele me abraçava, e me beijava as têmporas. Adormeci feito criança. Acordava e olhava.  Adormecia para sonhar com ele. Suas mãos estavam no meu ombro, sua cabeça apoiada na minha. Desejava que ele ouvisse com o coração tudo o que o meu dizia. Ele gritava, vibrava. A sua presença me feilicitava!

Nos sentamos perto um do outro e agora eu só queria enxergá-lo. Olhei o contorno do seu rosto e não me contive em passar a ponta dos dedos perto da sua orelha, passando pelos seus lábios, seu queixo, sua barba. Ele foi fechando os seus olhos grandes e abrindo o sorriso. Sorri de volta. Suspirei.

Seu sorriso se fechou tão perto do meu e eu já havia perdido as contas de quantas vezes já senti aquele frio na barriga. Seus lábios me davam uma sensação indubitavelmente maravilhosa a qual eu não consegui, nunca, me acostumar. Sentia o gosto da cerveja, o seu cheiro... me afastei.

- Nós podiamos voltar.
- Não, não podemos.

 Olhei-o dentro dos olhos. Ele me retibuiu de um jeito que me implorava silêncio, e mais carinho. Assim eu fiz. Me recostei na cama e fui escorregando. Deitei na sua barriga, e ele na minha. Continuei com a mão no seu rosto, e comecei a sofrer a cada poro dele que meus dedos tocaram. Ele mantinha o semblante tranquilo, quase sorrindo. Parei com as mãos na sua barba. Olhava, dessa vez estarrecida. Não compreendi o por quê de tanta incoerência.

- Mas por quê?
- Não estou pronto.
- Pronto para quê?
- Para isso.
- Isso o quê? Você me disse ontem que tem medo de fazer errado e olha, esse medo é todo seu. Eu quero arriscar. Eu quero tentar de novo. Você está me ouvindo?
- Estou, mas não podemos.
- Você está sendo egoísta!
- Eu sei!
- Então para com isso!
- Não posso.
- Tem outra pessoa?
- Não, não tem.
- Você parou para pensar no caso de eu desistir? De seguir a minha vida?
- Sim.
- E não liga? Fácil assim?
- Eu ligo, e não vai ser fácil.
- Meu Deus! O que você está pensando?

Ele fechou os olhos, procurando ar. Me levantei, e me fechei no banheiro. Eu já chorava o suficiente para precisar lavar o rosto e querer me afogar na pia. "Meu Deus! Meu Deus!" Também busquei o ar e voltei. Ele estava sentado na beirada da cama, de cabeça baixa.

- Você tem certeza disso? - perguntei, firmemente.
- Sim, e você aceite se quiser. - sendo mais firme que eu.

Estremeci.

- Eu não aceito.
- Você tem certeza disso?

Não consegui olhá-lo.

- Tenho.
- Quer que eu vá embora?
- Te levo no portão.

Nos levantamos. Meus parentes ainda se distraíram com ele e com o seu cabelo novo. Acompanhei-o até o ponto de ônibus, sem pronunciar uma palavra se quer. E sem ouvir alguma. Até que fosse embora, o silêncio imperou.

Um último beijo, na testa, antes de entrar no ônibus. Um último adeus, pela janela.

Mal esperei que virasse a esquina para virar as costas. A sensação que tive foi de um abismo sem fim e a que tenho, é que o tempo não passou. Desde então, só sinto dor.



25/10/14

Conheço-te

Eu olho e reconheço-te.
É você quem fez morada em todos os meus devaneios;
lascivos ou sofridos,
felizes ou mórbidos.

Reconheço-te.

No formato do seu rosto,
nos seus dentes me dilacerando inteira, à distância.
Nos seus olhos grandes,
de cor de café,
mesmo fechados, mesmo cerrados.

Ainda reconheço-te.

Reconheço-te com o corpo envolto por outros abraços,
afogando o queixo em qualquer clavícula,
com as mãos apoiadas em qualquer outra escápula.

Dói reconhecer-te
no homem que foi embora,
no amor mal resolvido.

Mata-me reconhecer-te
em toda dor,
em todo amor.

Reconhecem-te em mim.
No brilho do meu olhar,
nas minhas lágrimas.
Meus olhos são teus.

Reconhecem-te no meu corpo;
na minha tatuagem cuja dor foi para superar a sua.
Sua dor que está em mim.

Reconhecem-te em mim, dolorosamente.

E tu reconhece-me,
em mim.

12/10/14

Apesar de...


Ao pensar - com pesar - nos pesares,
sinto o peso do vazio que você me faz
e sonho com a leveza que seu beijo me traz.

Apesar dos pesares,
pese em mim.

Mesmo com os pesares,
levite comigo.
























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19/09/14

Ataraxia


Olha para mim que eu te digo que você é um sonho bom. Que daqui te sinto inteiro, te quero inteiro. Que só de me olhar e eu te dizer o mundo gira numa cadência acordada com a batida dos nossos corações, a sua respiração, o seu piscar de olhos.

A gravidade te puxa para o centro do mundo, e eu estarei la, te esperando. As minhas mãos estarão repousadas de palmas a mostra, aguardando as suas para que entrelassassemos os nossos dedos. Meus lábios entreabertos, ao encontrarem os seus farão névoa e pesarão nossas têmporas, empurrando-nos infinitamente para dentro de nós.

A nossa união, meu amor, consiste didaticamente na soma de todos os nossos átomos, independente da nossa natureza. Vamos nos ligar de todas as formas, até que a fusão esteja completa, e sejamos um só. Não vai haver regra, não vai haver lei, apenas seguiremos o nosso fluxo. A ataraxia reinará. O amor, também. E você vai ser o meu rei.


ataraxia 
a.ta.ra.xi.a 
(cssf (gr ataraxíaFilos Tranquilidade de espírito. 2 Ausência de paixão ou de ação. A. genital, Med: impotência. A. mental, Med: indiferença nos estados neuropáticos e na senilidade.

20/06/14

Voltando à ativa ao som de Iggy Azalea! Saiba mais sobre ela!



Bom gente, algumas pessoas devem ter notado (ou não) que eu fiquei alguns meses sem postar aqui, mas finalmente estou de volta! Tenho estado com a cabeça cheia até demais de ideias e assim que eu conseguir organizá-las, bora lá. Inclusive já preparei um ou outro texto para postar aqui, mas hoje para não perder o costume vim falar de algum vício musical recente: Iggy Azalea.

Depois de algumas semanas sem ouvir outra coisa além de "Work" decidi pesquisar outras coisas sobre a música e a vida dessa moça tão, hm, notável. Percebi que não sou o único, e há razões para isso.

Seu nome verdadeiro é Amethyst Amelia Kelly, sendo "Iggy" o nome de seu cachorro de infância e "Azalea" uma referência à rua onde ela nasceu, Azalea Street. Esse lugar onde ela nasceu, aliás, é a Austrália. Na adolescência, a ainda Amethyst trabalhava limpando quartos de hotéis, assim como sua mãe; seu pai era pintor e desenhista. Ainda pouco antes dos dezesseis anos, Iggy largou a escola porque só servia para fazê-la infeliz (tamo junto, gata) e foi para os Estados Unidos sozinha tentar seguir sua carreira como rapper (é das minhas, definitivamente).

Não preciso dizer que a estrada desde então foi longa e tortuosa: adolescente estrangeira viaja para os EUA para seguir carreira no mundo artístico, quantos filmes vintage já não fizeram sobre isso? Iggy Azalea, entretanto, conseguiu -- e deixa bem claro em suas letras o quão difícil foi para chegar ao sol. Seu som mistura hip hop com eletrônica e eu particularmente recomendo além da já citada "Work", "My world" e "Don't need yall".

Uma razão especial para falar dela justamente hoje é o fato do lançamento essa semana do videoclipe do T.I., "Mediocre", no qual ela faz parceria AQUI NUMA QUEBRADA DOS HUE BR BR. Confira!



(Encerrando com um Fancy para não dizer que não falei das flores, digo, das australianas)

22/04/14

Re



Todas as coisas me remetem a você de uma forma tão dolorida que eu começo a repensar se realmente reataríamos. E aí relembro de todos os motivos relevantes para te ter comigo. De todas as reações químicas, físicas; e depois de todas as reformas que eu precisei fazer em mim por você. De todas as vezes que revi o meu vocabulário para redizer que te amo. De quando você renovou e refez toda a minha vida quando ressurgiu dos meus devaneios para a realidade. De me revirar na cama para encontrar você, respirando, tão perto de mim - e seus olhos reluzentes, ora fechados, ora entreabertos; recíprocos. De me retorcer de dor por ver você partir. De beijar cada canto do seu rosto quando você retornava. Lembro-me de revisar palavra por palavra de cada carta que destinei, e chorar por reler todas que você me remeteu. De querer que o nome do meu gato fizesse referência ao seu. E sem mais delongas ou remorso, reconhecer que quero recitar-lhe cada oração, cada vírgula; cada reticência antes do ponto final. Eu insisto em reviver-te. Revelar que gostaria de arrancar qualquer resquício de idéia de retrocesso. Pedir para que revolva.

16/03/14

Estilistas que amamos - Zuhair Murad

Olá, seres humanos!

Nesse meu post, vou falar um pouco sobre o estilista Zuhair Murad.
Zuhair é libanês, natural de Beirute. Formou-se em Design de Moda em Paris, e em 1999 obteve sua primeira aparição profissional em um desfile em Roma. Além de desenhar roupas (alta costura, ou haute culture), é também designer de jóias, óculos e acessórios.

Ele não é muito famoso (ainda) no mundo fashion, mas é extremamente talentoso. Celebs como Taylor Swift, Katy Perry, Xtina e Beyoncé, vivem desfilando suas produções em red carpets e apresentações musicais. Uma curiosidade interessante é que recentemente, a Mattel convidou Zuhair para participar de uma coleção especial das Barbies. O vestido escolhido foi usado anteriormente pela atriz Blake Lively. Maravilhoso!


























Seu estilo criativo é chamativo, carregado de informações como pedrarias, bordados, brilhos, etc. Os tecidos são sempre muito fluidos, suaves, transparentes. A sensualidade de seus modelos é evidenciada pela elegância, sempre presente. Zuhair brinca muito com a dualidade: o delicado-sexy, o elegante-ousado. Justamente por isso, pra usar um look tem que ter cacife...

Sua versatilidade não para apenas nos looks festivos. Seus vestidos de noiva também são ultra famosos (e disputados). Românticos, também não fogem à regra: bordados, pedrarias, recortes diferenciados e bem sensuais acompanham todas as produções.
Eu não conheço muito de moda, mas eu adoro muito as produções do Zuhair. Ele é super dramático, mas é super usável... Não é tipo umas “Lady Gaga”. Hahaha




Confira algumas fotos do último desfile dele em Paris, e vejam se não estou errada.






É isso galera! Espero que tenham gostado. Críticas e sugestões são super bem vindas! :D

19/09/13

Ouça Lorde!


Sabe quando antes da maioridade você percebe que tem gente mais nova que você fazendo muito mais sucesso e tudo o mais? Então, é esse o caso que vim apresentar. Como sempre, é no mundo da música. Mas há uma diferença aí!

Isso mesmo, dessa vez estamos falando de música boa, de reconhecimento merecido! Ella Yelich-O'Connor, ou, artisticamente, Lorde, é uma cantora neozelandesa de dezesseis anos que lançou esse ano seu primeiro álbum, The Love Club, cujo qual já tem dois videoclipes: Royals e Tennis Court. Lorde já foi comparada com Lana del Rey, Florence, Adele, Sky Ferreira e Ellie Goulding. Ou seja, repito que estamos falando de música boa.

Não bastando, ela alcançou a primeira posição na New Zealand Singles Chart com "Royals" e já figura em sua sexta semana na parada alternativa da Billboard. Esse mês será lançado seu novo e primeiro álbum de estúdio, chamado "Pure Heroine". Ah, e não vou citar a beleza simples porém estonteante dela, até porque, devo dizer que estou viciado em Royals.



E você, o que acha?

(Ps- Algumas informações foram copiladas da página Lorde Brasil, que merece os créditos pelas tais)

14/09/13

Parceria & Novidades Suborn It + Conspiração Vital

Eu havia planejado fazer esse post semana passada mas, como minha vida é uma bagunça, acabei atrasando tudo. Espero ser desculpado por isso hsausuha.

Mas enfim, venho por meio desta informar que o Conspiração Vital fechou mais uma parceria! Dessa vez, com a Suborn It, uma loja online divina que, sério, acho digno vocês gastarem alguns minutinhos da vida de vocês conhecendo-a. E por quê?

Além do site e do logo da loja serem lindos de morrer, a proposta da Suborn It é a seguinte: sabe aquelas roupas que a gente vê e pensa "Caralho, eu necessito ter essa roupa!"? Não, pera, não existe dessa roupa em loja nenhuma. Só no Tumblr e no We heart it mesmo. E no Face daquela hipster popular que mora naquela cidade tão no escafundó que ninguém se importa se existe.

Pois então, são justamente essas roupas que a Suborn It trás até nós! Se não houver da roupa desejada no estoque, inclusive, você pode encomendá-las.

Não bastando, em breve a loja realizará show rooms mensais para mostra de seus produtos e a dona carinhosamente cedeu um par de vouchers para que pudéssemos sortear aqui no blog! Para quem não é de São Paulo e não puder ir ao show room, pode converter o voucher em desconto nos produtos da loja! Postaremos mais informações sobre isso em breve.

Enquanto isso, apreciemos: http://www.subornit.com



Cá estão alguns produtos da loja! Que tal?

08/09/13

Na rua,



Eu passei
e não vi você.

Eu senti.
Era seu perfume.

Me virei.

Era você
e suas costas largas.

Quando passei por você,
você não me viu.
Nem me sentiu.

Eu esqueci
de me perfumar.

Você continuou andando.
E eu parada.

Se eu pudesse, 
beijaria as suas costas, 
o seu ombro.

Te imaginei sem a camisa.

Você continuou andando.
E eu parada.

Te esfaqueei a nuca
com o meu olhar.

E nada.

Você foi embora.
E eu parada.
E eu calada.
E eu virada.

03/09/13

Eu queria que você tivesse cachos


Eu queria que você tivesse cachos pra ficar cada vez mais angelical, mas esqueço disso sempre que meus dedos escorrem nos seus cabelos lisos. Eu também queria que você fosse mais alto que eu e até que você fosse mais forte e todas essas coisas que eu sempre coloquei no topo da lista de coisas que me atraem nos caras. Queria que você me poetizasse, que poetizasse tudo. Queria que você tivesse o mesmo humor peculiar que o meu, que é deverás sarcástico e irônico. Queria que você já tivesse assistido os mesmos filmes que eu, que também gostasse de Los Hermanos e tivesse um olhar mais delicado e fosse atraído por fotografia. Queria que você não sacasse de primeira quando eu fico brava. Queria até mudar um pouco suas roupas de vez em quando.

Queria, queria, queria, queria tantas coisas... só que se todas essas coisas mudam, você não vai ser o cara que me conquistou e na verdade eu não quero nada disso não, magrelo. Mas as vezes eu realmente queria que você tivesse cachos.



(somos nós dois na foto sim)

31/08/13

Auto da cidade parte II

Estou completo, sou demais até para mim. Quero tudo, mas numa cidade onde a idade e o status são tudo o que importa, o tudo é algo apenas inexistente. Em São Paulo não há nada, ninguém nunca é nada. O vazio é permanente, transbordam pessoas mas falta gente. Onde gastar o tempo em uma cidade que não para, que não para de repetir os mesmos erros? A vanguarda é uma ilusão. Verdade é a chuva caindo, são os segundos arrastando os pés. Não quero compartilhar minha eternidade oca com ninguém fora ou dentro deste lugar: não quero me compartilhar com ninguém. Mas também não quero ficar sozinho. Sou único? Mas deuses, por que essa coisa de ser único tem um som tão solitário?
            
Um tambor reverberando no túnel da espera. Espero enquanto o senhor da foice não vem. Não há no que acreditar senão na certeza de que sou tão sozinho como qualquer outro cidadão -- será que isso me torna igual a eles? Estou cansado da confusão do nada. Meu peito murcha ao ver o sol: mais um dia, mais um dia dessa mesma coisa, mais um dia dessa mesma agonia. Agonia de não viver, ser apenas mais um, apenas existir. Afinal enquanto sou esmagado pelo relógio, enquanto sinto na pele cada minuto não vivido e cada ruga que ainda não tive, isso é tudo o que me resta: a plena existência. Depois de tantos meses preso, choro vontade de viver, vontade de ser. Nada mais, não sofrer. Não me irritar nem complicar: só ser, só viver e ser vivido. Ser vívido.
            
Entretanto junto com meu choro de vida choram os piches nos muros há quilômetros de distância. Um preto em pedras cinzas, tudo o que há nesse lugar são esses cinquenta tons de cinza. O grito metropolitano é no muro e em nenhum lugar mais: ninguém bota a cara pra bater nesse lugar onde em um segundo tudo se pode perder. É preciso seguir as convenções, as modas. Entricheirar-se em estereótipos, em rodas. Se expressar em nossos gostos e redes sociais tudo o que queríamos ser, mas deixando sob as vestes a única verdade que poderíamos conhecer. Somos sombras apenas, fantasmas, centelhas. O problema é que só nos daremos conta disso quando nossa carne se tornar inútil, jogada num cemitério como qualquer outro, sob outra construção de pedra -- tudo é pedra -- talvez com uma frase e um ramo de flores. A compreensão só vem quando os únicos que nos desejam são os vermes.
            
Enquanto isso não vem, só resta esperar. Seguir o instinto da carne vez ou outra e, nas horas de ócio, rezar ao deus da minha preferência do momento para que surja alguém que abra meus olhos e diga que eu estava errado. Que me iluda ao ponto de fazer-me acreditar que há algo no mundo em que ainda valha a pena apostar. Choro a vontade de ser ludibriado para ver beleza mesmo onde não há, ter vontade de felicidades instantâneas como se elas fossem tudo. Me entregar e então apanhar, ser chutado de volta a escuridão do caixão seja em vida ou seja em morte. A ilusão é uma sorte.


27/08/13

Esteriótipos

Meu bem, é o seguinte: não é porque eu sou negra e tenho perna grossa que eu vou dançar um funk, rebolar até o chão e gostar disso. Eu uso roupa curta, mas não vou deixar você passar a mão na minha perna. 

Tenho facilidade de falar sobre sexo, mas não quero ver o tamanho do seu pênis, muito menos dissertar ou falar acerca do desempenho que você teria caso me levasse pra cama. Eu me masturbo, admito isso, e nem de longe isso é da sua conta. 

Eu gosto de escrever, tenho a letra bonita e não vou escrever uma poesia para você dizer que é sua e levar na sua aula de português. Vou toda semana ao salão escovar os cabelos e mesmo assim me aceito, acredita? 

Quando estou afim de um cara dou em cima dele, mas isso não quer dizer que eu vá dar em cima de você também. Se sou educada com você no ponto de ônibus ou agradeço por ter me dado uma cantada não quer dizer exatamente que eu queira ficar com você. 

Sim, eu tomo iniciativa das coisas e gosto de falar em público, mas não precisa achar que eu quero ser melhor que você. Eu torço pro Atlético Mineiro, e não ligo mesmo - de verdade - se você torce para o Cruzeiro. Senta aqui do meu lado, vamos falar de algo que temos em comum.

Antes de achar qualquer coisa de qualquer pessoa, pense se isso não é só um esteriótipo ou um pré-conceito qualquer. O jeito com o qual eu me porto não deve influenciar no tamanho do seu respeito por mim. Antes de ser tudo isso que você vê, eu sou mulher, tenho sentimentos e sou importante; como qualquer outra pessoa que você ama (sua mãe, por exemplo).

Não estou pedido muito, é só o que quer que façam por você também.

26/08/13

A depender de mim


Sem mais rotinas, quero a minha autonomia!
Sair dessa mesmice, de me preocupar com essa vida adulta sem motivos.
Não, não é fugir das responsabilidades, é fazer o meu caminho, fora desse padrão ignorante que a 'boa conduta' nos impõem.

Quero cada samba de todos os cantos desta terra, vou é me jogar na roda!
Cada paisagem, cada pessoa, cada som será único e te verei em todos eles.
Todas as flores mais raras eu vou descobrir e me perfumar.
Quero todas as musicas da natureza, quero sentir esse mundo inteiro pulsando na minha liberdade.
Sem planos, sem mapas, sem roteiro, será inesperado como a primeira vez que te vi.

Essa é a minha vida e pela a minha lei, a gente vai ser feliz. É isso tudo que vai construir o meu ser, será a minha busca das respostas que nunca tive.

Serão várias alvoradas e crepúsculos de todos os ângulos possíveis. Será aquela água gelada que nos renova de várias fontes, seja do céu ou da terra. De estar descalço e sentir as vibrações do mundo que existe em mim. Cada descoberta, cada aprendizado será de choro e de alegria, de saudade e desapego. E cada sorriso, meu bem, será dedicado a você.

25/08/13

Corrida pelo inalcançável

Preciso correr pra não ficar pra trás. Tudo aquilo em que me sustentei está se movendo tão depressa que meu chão não é outra coisa mais senão uma esteira. Sem fim. Minhas pernas se cansam, endurecem, adormecem, enfraquecem, mas não posso ceder -- por que não posso ceder? Se eu cedo agora, ainda cedo, meu próprio peso se voltará contra mim e eu cairei. Espatifarei minha cara no chão e continuarei seguindo, um peso morto qualquer acima da esteira, como tantos outros por aí. As centenas de pessoas que antes me seguiam pularão por cima de mim e seguirão em frente em suas próprias corridas para chegar sabe-se-lá-onde -- o Infinito.

Parece tão bobo desse ângulo, vendo o quão parecido sou com tantos outros. O fim da corrida parece tão inalcançável que a resposta mais sábia parece ser apenas se deixar levar, se jogar duramente no solo esperando perder a consciência, a capacidade de lutar, a possibilidade de ver o quão ridícula é essa nossa luta coletiva em busca de um pseudo poder individual. Por que tudo isso importa? Dinheiro, roupas, pessoas, amores, felicidade. Por que tanta competição? Por que tantos obstáculos me impedindo de ser quem eu sou?

Eu não quero lutar. Eu não quero correr. Eu não quero agradar ninguém, ser simpático ou seguir qualquer protocolo. Eu não me importo realmente. Não faço parte de todas essas pessoas iguais, diferentes, não pertenço a lugar nenhum. Alguém deve ter me botado aqui sem eu ter percebido, sem que eu saiba o porquê. Meu lugar não é aqui, disso eu tenho certeza. Amo muitas pessoas e coisas que odeio, amo existir, mas a existência é detestável. Somos todos detestáveis. Eu quero um pouco de tudo, alcançar o inalcançável, mas também quero morrer um pouco. Todos os dias. Para sempre.



18/08/13

Bum!

Era tanta gente ao nosso redor! Tantos brados! Uma cena tão linda! Não pude resistir e puxei você para mim. Ignorei as brigas nas quais as pessoas ao nosso redor se metiam. "FASCISTA!" gritavam de um lado, "OPORTUNISTA!" gritavam do outro, "SEM VIOLÊNCIA! SEM VIOLÊNCIA!" gritavam do meio. Outras canções e gritos de guerra reverberavam nos arredores do manifesto mas eu me agarrava ao calor dos seus lábios como se fosse a última vez que fosse senti-los.

-- Talvez a gente morra essa noite -- eu disse, ofegante, triste, radiante, exultante. Todos os "antes". Eu sentia todas as coisas ao mesmo tempo como se houvesse uma chama dentro de mim gritando que isso, essa coisa de estar à beira da morte, é o viver de verdade.

Senti a fúria da urgência em suas mordidas. Pessoas nos empurravam. Tudo o que eu ouvia eram zunidos e um bum. Assim... bum! Arregalei os olhos enquanto todos ao nosso redor corriam para todos os lados. Salvem suas peles!, era o grito desesperado de milhares de pés. Iam para lá e para cá e no meio da confusão o perdi.

Outro bum e mais outro. Meu amigo, meu companheiro. O conheci essa noite, fizemos amizade, lutamos juntos pelo país. Não perguntei o nome dele. Não sei qual exatamente era a causa pela qual ele estava lutando ali. Será que ele era amigo ou inimigo? Se sobrevivêssemos, será que ainda lutaríamos um contra o outro? Nos salvaríamos? Ou será que nossos filhos o fariam por nós?

O som da marcha imponente corria em minha direção, ecoando em mim. Corri sem saber muito bem para onde. Nos últimos tempos, em outras noites como essa, vi que há muito mais coisa por trás das pessoas com quem passamos nosso tempo do que imaginamos. Por que eles estavam do lado inimigo e eu aqui? Meus amigos agora eram instantâneos, militantes que me ajudavam ou se uniam a mim todas as noites na defensiva dos rebeldes. Eu resistia com milhares de outras pessoas, porém, sozinha. Como aquele inesquecível beijo de fúria, tudo o que eu podia fazer agora era atacar ou correr.


14/08/13

Sobre o amor dentro de mim (por você)


Todos os caras que passam por mim são você.
Todos os carros que eu espero passar antes de atravessar a rua estão te levando para algum lugar.
Todos os bebês que vejo são o filho que nós vamos ter.
Cada casal enamorado que se beija na rua somos nós dois... juntos.
Venho andando e tentando não te esquecer em cada esquina.
Penso em você e vejo que mal ganhei, e já perdi.
Eu te desencontro todos os dias, em tudo isso.
Mas esqueço que te tenho aqui dentro de mim.
Suficiente ou não, é o que eu posso viver.
O meu amor, dentro de mim, por você.

11/08/13

- Alô, tudo bem? Tô bem também, é que



hm, sei lá sabe, só liguei pra dizer que não sei quando volto. As coisas têm estado meio bagunçadas ultimamente e minha cabeça simplesmente não consegue descer das nuvens. Tenho me sentido completamente conectado com tudo e com todos ultimamente mas, sabe, não consigo dar atenção a ninguém. Tenho me distraído bastante, passado horas pra responder as pessoas no facebook, dias pra responder as mensagens que tenho recebido no celular... tenho feito de tudo mas, se for balancear, eu não tenho mesmo é feito nada. To só flutuando, sabe? Deixando a vida me levar, seguindo os ventos, ora cá ora lá. Lembra daquela empresa que eu disse que comecei a trabalhar meses atrás? Tenho crescido bastante lá, tem acontecido tanta coisa... tá tudo uma bagunça e eu to tentando equilibrar tudo bagunçando a mim também. Não sei se cê já passou por isso, sei lá, eu to com saudades daí, mas não me imagino largando esse lugar tão cedo. Sinto saudades daqui também, tem tanta coisa que ainda não vivi e fico um pouco triste quando penso que não sei se é possível viver tudo o que eu quero... se pá é por isso minha insônia. Tenho dormido muito pouco ultimamente, passado dias inteiros cansado mas, simplesmente, não consigo dormir. Vou ter tempo pra isso quando eu morrer. Acho que se estamos vivos é porque é pra viver né, apesar de que ficar na cama por horas é maravilhoso também. A gente sonha com mais facilidade. Mas não tenho precisado sonhar de olhos fechados ultimamente, to só sonhando de olhos abertos e correndo desesperadamente pra descobrir de que são feitos esses sonhos quando eles se materializam na nossa frente. Tenho descoberto que os sonhos são naturais, o que é quase decepcionante, mas o real é muito melhor que o sonho. Vocês deveriam vir pra cá viver comigo, largar tudo o que vocês planejaram e sentir essa coisa que é a vida soprando nosso cabelo em viagens constantes e infinitas. Tenho muita coisa pra contar agora, uma sucessão infinita de histórias mas não adianta o quanto eu as repita, elas jamais serão uma cópia fiel ao que eu vi e senti. Tenho conhecido tanta gente bacana que nem sei mais o que é ódio ou raiva ou frustração, to só amor ultimamente, se eu puder me dar ao luxo de anexar tal qualidade a mim. Ser humano é tão bom... apesar dos obstáculos e limitações acho que deveríamos reclamar menos. Podíamos ajudar mais, parar de cobrar pra fazer qualquer porcariazinha de favor. Ser humano não é isso. Acho que isso é coisa de máquina caça níquel. Mas não acho que eu tenha o direito de achar qualquer coisa, acho que o que as pessoas pensam ou fazem não é da minha conta. Da minha conta é só viver minha vida. É só seguir. E nessa coisa de viver tenho me sentido evoluindo embora eu ache que pensar nisso é um regresso, evolução é uma coisa tão mesquinha e egoísta, é pensar que há algo melhor que outra coisa, e por haver algo melhor há algo pior, algo inferior. E nada é inferior. Desde que decidi seguir tenho sentido que as coisas apenas são. Mas acho melhor desligar né, nem sei mais o que to falando, liguei mesmo era pra dizer que senti sua falta hoje e... cê tá aí ainda? Alô?

09/08/13

Tempo verbal

Queria te encontrar ao acaso num domingo ensolarado. Eu te miraria de longe, feito uma felina escondida; até você retribuir meu olhar cheio das segundas, terceiras e quartas intenções. Eu te mostraria minhas presas de predadora, e você retribuiria o seu sorriso de presa indefesa. Penetraria o seu olhar com o meu, te deixando imóvel, hipnotizado. Caminharia na sua direção, e quando estivesse próxima o bastante saltaria em cima do seu corpo relativamente pequeno e usaria as minhas garras para finalmente te capturar no meu abraço. 

Quando te abraçar, verei que na verdade o predador é você - que usa seu braço para me algemar a cintura - e que seu sorriso de presa na verdade, é mordida de animal feroz. Rasgará meu pescoço afora, e eu sentirei todos os pêlos do meu corpo arrepiarem em ritmo frenético.

Usarei as minhas garras novamente, para te apertar ainda mais a nuca e tentar reverter aquela situação. Você me apertará ainda mais - agora com os dois braços - e por pouco eu ficaria sem ar. Descerei as mãos da sua nuca, passando por seus braços, e grunhirei: "Tudo bem, você ganhou!". 

Verei contentamento nos seus olhos que, por tantas vezes, eram puro mistério para mim. Você usará sua boca para aprisionar-me a língua, os lábios, e consequentemente, a mim mesma. Não relutarei mais. Agora as minhas garras apenas puxariam suas roupas para que o ergástulo fosse finalmente consumado. Você me predou.

Depois só vou querer escrever sobre você. Criar situações para que você as viva comigo. Te cobrir de metáforas, de palavras difíceis. Quem sabe até usar os verbos num tempo feliz... Pelo menos uma vez esbarrar com você no tempo presente. Na verdade, queria mesmo é que nossos sorrisos se esbarrassem.
Aí sim.


06/08/13

Inferno

É o ruído do metrô, a vibração do ônibus, a convulsão da minha cabeça, são gritos, sou eu. O inferno. É a queimação do que eu poderia transformar em racional, do que eu poderia transformar em surreal, do que eu poderia transformar em felicidade. É me vomitar para dentro e sufocar em todas essas noites solitárias. Desejar a sombra que me tortura enquanto luto para me libertar dela, ir em direção a um horizonte límpido e desconhecido sem um porquê. A sombra é conhecida, a escuridão é desde e para sempre presente, o breu é a segurança.

Eu agonizo, eu danço como um satanista dentro de mim, a morte nunca chega. Nada nunca chega. O terror é infinito. O inferno. É aqui. Meu pecado amargo. A dança voluptuosa da dor, as luzes apagadas por trás dos meus olhos. Dormir para sempre. É isso. O inferno. Dormir para sempre: acordado. Nunca estar ciente o suficiente, ciente o suficiente para perder a razão. Para ser máquina como qualquer um, ser feliz, ser massa, ser massa infeliz. Eu tenho que correr -- para quê? -- correr até o fim que nunca chega correr desesperadamente correr pela minha vida e se tropeçar e me despedaçar e cair mesmo assim devo correr e correr mesmo que me esfole devo correr mesmo que eu me torne carne viva correr devo correr porque tem algo atrás de mim correr nunca parar de correr correr é para a vida para correr tentar achar essa coisa correr essa coisa que chamaram de viver essa é a resposta correr para tudo correr e correr até morrer e mesmo assim continuar correndo. Correr. Nunca parar de correr. Tem algo atrás de mim -- mas o quê? Devo correr, só sei disso.

A qualquer momento os demônios podem me pegar ainda mais terrivelmente do que já pegam -- o quê? -- correr correr sem pensar só isso correr correr na escuridão ser torturado sem se submeter à tortura correr até enlouquecer porque só assim se chega a algum lugar correr corra do zumbido, corra, corra, esse eco, essa voz que me diz pra fazer alguma coisa com essas pernas, ser alguma coisa com essa capacidade de ser alguma coisa, pega esse eco e corre pra salvar -- o quê? Correr. Chorar oceanos de lágrimas no meu breu enquanto sapateio e acima de tudo corro, morro, mas continuo mesmo na miséria intelectual financeira emocional miséria total, correndo mesmo após a percepção do tamanho da minha mediocridade que nem é tão maior que a dos outros assim. Mas eu choro enquanto corro e corro enquanto choro porque não quero ser devorado não quero ser devorado como qualquer um e virar massa no estômago do monstro correr é isso que devo fazer correr e a resposta está aí. O ciclo eterno. Correr para sobreviver, nunca chegar a lugar nenhum. Correr, Morrer.


04/08/13

(Parênteses)


Estou aqui sentada, contabilizando todas as vezes que quis passar na sua rua para ver se te encontrava (usando o meu short curto). Quis, quis muito, mas não passei. Me contento com a rua paralela, olhando pro seu quarteirão do meu lado esquerdo, toda vez que volto para casa (grande coisa...).

Admito que há algo dentro de mim que grita insanamente para que eu te procure. E diga: "Ei, te quero (dos pés à cabeça, todo o seu corpo, sua boca me mordendo, me beijando) pra mim!".
Há algo em você (tudo, na verdade) que me faz ter vontade de nunca mais sair da ponta dos pés. Quero alcançar sua boca, quero te abraçar pela nuca ("cê" sabe, sou baixinha).
Há algo entre nós que eu nunca vou saber o nome. Denominarei paixão (tesão, tesão!).
Há algum lugar no qual nos encontraremos. Haverá um tempo para isso (que é "nunca", só pode).

E aí sim te explicarei de todas as minhas fases (porque como você mesmo disse, sou complicada e perfeitinha). De tudo que passou na minha cabeça quando estávamos juntos. O que ainda passa quando sinto seu perfume (você, você, e mais um pouco de você; de todos os ângulos possíveis).

Fico pensando nessa força maior que fez com que naquela tarde meio louca eu te conhecesse; depois nos unisse feito dois imãs de segurar papel e agora contribui para que nunca mais eu te encontre... Deve vir de Deus, só pode (tomar no cu, viu)

Mas talvez seja melhor não contabilizar. Nem pensar. 
O fato é que te quero dentro dos meu parênteses (porque no coração, você já está). Quero beijar, estar com você; quero te pegar sóbrio (e te embebedar com a minha saliva). Quero literalmente matéria entre nós dois (porque meus pensamentos e imaginação são todos seus, todos eles). Quero você fisicamente (e quimicamente) falando.  

Vem cá, vem gostar de mim também (ou melhor, só me leva pra você). Me deixa te abraçar com os meus parênteses.

imagem: pinterest

31/07/13

Sobre encontrar o amor da nossa vida

Ouvi dizer por aí que pessoas que começam a namorar mais tarde têm casamentos mais duradouros e felizes.  E isso não está errado não. Às vezes nós amamos rápido e demais. Desconhecemos - esquecemos - que coração caleja, coração peleja; e depois é difícil amar de novo. Dói. (Confiança? Nunca mais sente nem cheiro!)

Nós amamos do jeito certo o amor errado. Por isso que depois vem outro. Daí são duas as opções: ou sana tudo, ou enfiam o dedo na sua ferida em carne viva - e sim, a segunda opção é mais provável. Então, mesmo que o meu coração seja desses feios de tanto calo, eu prego o clichê de que nunca é tarde para amar. E completo: não tenha pressa, ele chega. 

- Mas Ceres, eu já amei tanto, e agora? Sou um caso perdido?

Olha, boa pergunta. Eu também não sei. Passei da fase de fazer listas com o nome de um por um, mas isso não anula a existência desse exército na minha vida (ou será um batalhão?). Bom, de qualquer forma, eu acredito que o segredo seja não desistir. Poxa vida, termos adiado o amor da nossa vida não faz com que ele não exista. Debaixo de tanto calo tem a lava fervente do amor! Sempre terá! E o melhor: vai ter quem queira nadar nela. 

- Gente, isso é sério? Eu amo alguém! O que eu faço?

Simples. 
Diz. 
E espera. 

- E se der errado?

Desespera.
Mas relaxa, que a gente sempre se recupera.


imagem: pinterest

29/07/13

Escolhas


"Entristecedora" é uma palavra com uma sonoridade doce e não é uma pena que ela seja sobre a tristeza. Existe um pesar para falar sobre a tristeza e acho este, um senso comum desnecessário. Acho a tristeza bonita também. Acho, que valorizamos tanto ser feliz que a tristeza vira uma coisa ruim e não precisa ser assim. Ser feliz é ótimo, mas ser triste pode ser lindo também.

A tristeza é necessária também e a forma que lidamos com nossos sentimentos é puramente pessoal, cada um se transforma e redireciona suas emoções em diversas formas e caminhos diferentes. É bom se lembrar que é sempre uma questão de escolha, e que até a felicidade em excesso pode fazer mal como a tristeza. O perigo está nos excessos, mesmo quando ele parece não existir.

Somos como imãs, atraindo sempre coisas de diversas naturezas e extremidades, as vezes imperceptíveis até elas nos engolirem e mostrarem sua força. O que você atraiu pra sua vida e manteve, e o que repudiou são só as escolhas que fez.

27/07/13

Torre de marfim

Eu deveria perder menos tempo escrevendo livros e mais tempo escrevendo testamentos. Muitos anos perdi tentando me livrar do fantasma dessa dor e transformar tudo em arte. Minha vida, meu redor, meus sentimentos e pensamentos. Tentei dar beleza a esses tormentos. Infelizmente, porém, nem os melhores dos recursos escondem quando um artista é demasiadamente ruim. Pintei com cores e palavras bonitas e nem por isso a depressão teve fim.

Essa arte malfeita é tudo o que me resta agora. Preso na escuridão, esse negro da tinta é minha caneta que chora. Não adianta enfeitar as coisas quando nossa vida não melhora. Rodei, rodei e tudo continua igual. Sozinho em casa, permito que dos meus olhos minha língua experimente o sal. Deixo tudo escorrer enquanto ainda não posso correr. Ou morrer.

Muito eu falei e bradei mas com o tempo já me esqueço novamente o porquê de estar aqui. A arte ainda não tem um sabor muito mais doce do que outras mentiras que já ouvi. Talvez seja para combinar comigo essa amargura. Logo eu que em delírios de desespero desejei provar alguma coisa pura. Acho que a pureza é mesmo assim feia e por isso tanto essa angústia me incendeia.

Agora que eu finalmente alcancei o dom de ver a beleza na alegria e na tristeza, vejo que isso não basta. Não me trouxe nada além de lembranças e farsas. Mas eu demorei tempo demais para ver o quão ridícula é essa minha razão de viver -- não menos ridícula que qualquer outra. A quantidade de bens que pode me fazer é pouca. Na melhor das hipóteses me tornarei apenas mais um louco exilado, numa torre de marfim, ilhado, por tudo e por mim.

Me chateio com os deuses. Me sinto uma pessoa boa e não consigo imaginar o que fiz em meu destino que me tornasse merecedor de toda essa solidão, ou, pior ainda, da longevidade dessa minha visão. Eu não queria saber antes de tudo o que iria acontecer. Nem poderes para mudar as coisas eu pude ter -- se tivesse, talvez o futuro eu não soubesse. Me sinto único, mas não de uma forma atraente. De que serve isso no meio de tanta gente? Por que este mundo então, se não me é dado o direito de ser como qualquer outro? Devo abrir mão de tudo o que sei e me alienar como todo mundo faz? Ou, essa bagunça que sou, é um sinal de que devo de fato ir pra minha torre de marfim, cuidar só de mim, ir em busca da paz?

Se assim o for, não sei de que me adiantou tanto ver ou pintar o belo do mundo se, passado esse calor, não poderei o ter e minha alma escreverá mais um livro que permanecerá mudo, no meio de tantos outros, imundo.


24/07/13

"É o meu sonho."



- Alô?
- Oi meu amor!
- Tudo bem?
- Sim, e com você?
- Que bom! Estou bem, mas sinto sua falta.
- Eu também! Como foi seu dia?
- Foi ótimo, pensei sobre aquilo que você me disse.
- Pensou mesmo? E o que resolveu?
- Eu quero, mais do que nunca, que fiquemos juntos.
- Meu Deus, você não sabe o quanto isso me faz feliz!
- Eu também estou!
- Vem cá, você viu a Lua hoje?
- Sim, estou olhando para ela agora.
- Eu também...
- Sabe, às vezes eu sonho que estou entrando na sua casa; mas nunca te encontro. Acredita?
- Vai ver que a gente se desencontra, porque eu estou aí te guardando a noite toda.
- Estamos tão perto um do outro, existe mesmo a necessidade de esperarmos por nossos sonhos?
- Concordo com você... Me espera no portão?
- Você vai vir me ver?
- Não quero aguardar até conseguirmos dormir para te encontrar.
- Então vem, me encontra agora.
- Deixa eu me deitar aí, e sonhar contigo?
- Claro... É o meu sonho. Vem ver a Lua daqui, comigo.

23/07/13

Literal - mente


Fecho os olhos para poder te ver melhor. Me cubro com aquele cobertor velho para finalmente te sentir debaixo dele. Uso das minhas próprias mãos para ter o teu carinho. E ali fico te amando, por horas a fio.

Me desvencilhei de você fisicamente, mas literalmente, meu coração está contigo. Sinto seu cheiro independentemente da sua vontade. Sinto você - mais da minha metade. Meu amor, meu amor é alheio à você. Ele é literal, mas só aqui. Só comigo, só para mim.

Nunca saberá o que eu existo de você aqui. Jamais saberei o que por mim habita em ti. 

Fecho os olhos novamente e vejo tua pele, tuas cores, tuas coxas, teus pés. Os abro e ouço promessa por promessa, gargalhada por gargalhada, meu nome no teu timbre, no teu tom, no teu ritmo; no meu contratempo. 

Me abraço e desapareço nas minhas próprias mãos, desfaleço no meu próprio cárcere. Sinto o cheiro da nossa carne. Do nosso suor. Lembro-me de onde escondi o resto do pudor que havia em mim (dentro de ti).

Meu amor é literal. 
É fogo, é dor - em mim.
É o resto do que não faz falta - sou eu.

20/07/13

Por que você não volta, Júlio?

Nós demos a corda a eles e como numa ópera eles a enroscaram no próprio pescoço. Um julho sangrento, um Júlio sangrento, um Júlio suicida. Eu poderia culpar as drogas que você usava, eu poderia culpar as drogas que você traficava, mas eu saberia no meu pequeno pedaço fantasma, o pedaço de você que continua em mim e que permanecerá eternamente de luto, que isso não seria bem a verdade. Eu ainda saberia que fomos nós que o matamos.

Por alguma razão eu tive medo de me aproximar enquanto ainda havia tempo, por alguma razão eu apenas fiquei escutando de fora, atuando em um cenário próximo, vez ou outra ouvindo um eco que chegara do seu campo de atuação ao meu. Vez ou outra eu via uma fotografia sua, notava que eu estava ficando mais alto, notando que eu estava ficando maior; só não notei que enquanto eu crescia, você diminuía. Você definhava enquanto aparentava estar melhorando. Oh Júlio, por que tiveste que ir agora? Haveria algum sinal nessa sua partida repentina, nesse choque que você supostamente escolhera deixar para trás?

Eu queria que você tivesse me procurado. Não para dar um aviso, não para alertar sobre uma possível viagem a um negrume desconhecido; queria que você tivesse me dito apenas o que estivesse sentindo. Eu queria ter sido seu amigo, pois me agoniza pensar que posso ter sido um dos móveis no seu quarto que apenas assistiram à sua queda, eu me sentiria melhor sendo o papel ao qual você confidenciara suas últimas vontades ou o último caixão de madeira ao qual você repousara. Talvez eu gostaria de pensar que posso ter sido seu último amigo.

Mas esse é o único problema da morte: notarmos o que poderíamos ter feito e não fizemos; imaginarmos quais foram os últimos pensamentos, as últimas sensações, os últimos sentimentos do corpo enquanto ainda vivo; pensar em quanto tempo será que se passaram os últimos segundos, como fora que as engrenagens pararam de funcionar de repente... e o simples fato de imaginar já pára tudo. As coisas se movem mais devagar e a gente fica sem reação, como se a nossa parte que pertencia àquela pessoa tivesse levado um choque e instantaneamente apreciasse uma inconsciência enquanto o corpo permanece de olhos abertos. Todo o resto entra em processo de luto.

Júlio, meu caro, você parece ter tocado as mais profundas proporções às quais o que vive dentro de mim é capaz de chegar. Feche seus olhos e permita que as minhas profundezas toquem as suas e sintam a coisa em que se tornou, se for uma coisa. Se não for, me mostre como é essa luz ou essa escuridão na qual você vagueia, a menos para que eu saiba que mesmo morto você ainda vive bem. Sei que não foi você quem lhe matou, mas Júlio, se passares por mim em algum momento nessas grotescas entradas do multiverso, por favor, me pare nem que seja para um cumprimento, nem que seja apenas para um "oi". E, quem sabe, nosso espíritos poderiam pela primeira vez tomar um drinque juntos!


[ Nota: Já pensei inúmeras vezes em me matar e conheço outras pessoas que idem. Dois anos atrás, especulava-se que a Amy (Winehouse), morta em julho, haveria se matado; no mesmo mês do mesmo ano, um garoto da minha escola também se matou. Recebi a notícia de ambos na mesma noite e foi um choque. Alguns dias depois escrevi esse texto. Espero que eles estejam bem e que nós sejamos humanos menos miseráveis, tornando o mundo um lugar melhor e dando motivos para que as pessoas queiram viver e não morrer. ]

17/07/13

Despedidas Sinceras

Que sigamos em frente então, cada um com o seu caminho.
Poderíamos sonhar juntos, mas viver é algo bem independente quando se vive intensamente. Logo, que cada um viva o seu, para compartilhar o nosso, entre nós, com todos, que seja. Sejamos livres mas que saibamos a estrada de volta.

Vamos ver outros lugares, respirar novos ares, se banhar em outros mares. O mundo inteiro é o nosso limite! Ou não. A lua me parece um bom lugar para se conhecer... Mas cada experiencia tem que ser intensa, única, bonita e cheia de aprendizados. Essa é a minha condição.Que sejamos felizes, tristes. Que não queiramos voltar pra casa e tomara que a gente sinta saudades.

Sei que nossos destinos vão se cruzar nessa longa jornada. Espero que depois, cada um conte suas aventuras, dai a gente começa uma nova historia.

Viver de verdade é assim: com momentos incertos, com diferentes sabores.
Te peço que de vez em quando possamos nos encontrar, ficar deitados juntinhos. São esses momentos que eu afirmo para mim mesma que te amo. E amor é isso, é compreender que as pessoas são livres. É dar liberdade ao outro.


"Quem tentar possuir uma flor, verá sua beleza murchando. Mas quem apenas olhar uma flor num campo, permanecerá para sempre com ela. Você nunca será minha e por isso terei você para sempre."
11 minutos - Paulo Coelho


16/07/13

Renovando



Só estou tentando registrar todos os gritos abafados do coração e da alma, porque são sinceros. E sentimentos sinceros são dignos de serem lembrados, mesmo que a camada de orgulho (ocasionalmente ferido) costume não deixa que as lembranças felizes fiquem. E então percebemos que é necessário esvaziar um lugar para preenchermos outro. Você pode sentir uma coceira de lágrima nos olhos quando perceber isso, mas lembre-se que é necessário quando acontece. E sincero.

Então não se assuste: esse é só o renovar da vida.

13/07/13

Bêbedo de ilusões

Ainda ontem abracei a escuridão e vi uma dança de ilusões. Era tudo tão mísero e belo, no ritmo certo, que eu me envolvi. Tentei apenas contemplar mas ao final eu já era mais um dos dançarinos iludidos. Vivíamos tentando convencer aos outros da mentira que dizíamos que éramos e acreditávamos na mentira dos outros também. Fora daquele breu, ninguém brilhava realmente.

E talvez por isso eu preferisse viver nesse lugar escuro para que pudesse ver as coisas irradiando de vez em quando. Um show de falsas belezas todos os sábados, qual o problema disso? Talvez eu devesse adequar às minhas sextas também. E quintas. E à semana inteira. Eu deveria mesmo é viver bêbedo para jamais ver a infelicidade das tardes comuns. Ter meus olhos sempre vermelhos de alegria.

Eu seria definitivamente popular. Todos adoramos essa gente bêbeda de fantasias, vivendo milhares de histórias e inventando outras milhares. Algumas nem dá para saber a que hemisfério pertencem. Talvez assim todo mundo gostasse de mim, e se não gostasse, ao menos me conheceria. Eu já não seria qualquer um. Eu seria uma zonzeira perdida na noite, sempre visto abaixo das estrelas como que abençoado por elas. A noite seria meu chapéu e a festa minha vida.


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