13/12/2009

Controlando

"Tá na Extra, tá com tudo. "Boa Tarde! São quatro horas e quarenta minutos, nesse domingo lindo, com muito astral!" - nessa hora começou uma música de axé melosa, falando de timidez que mata -.

Tive que tirar prova: me mexi no banco esquerdo do carro, atrás do motorista, com as mãos em cima da perna, e cerrei os olhos, pra olhar através do vidro que não abria, arranhado, e, pra ser sincera, não haviam mentido pra mim: o céu estava bonito mesmo.

Mas aquilo não era o suficiente.
Por dentro, estava com uma vontade ridícula, incontestável e controlável de deitar em posição fetal e chorar, chorar, chorar. Se não pudesse deitar, e ficar em silêncio, gritaria, e choraria, só pra ver se o desespero passava.

O que eu fiz foi, numa tentativa orgulhosa e triufante, cruzar os braços, com força, por cima do estômago e segurar o ar, até chegar em casa. Tudo pra não me verem chorando, com cara de desesperada nem nada do que as pessoas à bera da depressão, desespero e com muita triteza acumulada fazem.

Na verdade, deu tão certo, mas tão certo, que só me deu vontade de chorar de novo agora, porque eu parei pra pensar nisso.
Tenho 6 dias. Sabe o que é isso?
Eu aceitei, mas não me conformei, não estou gostando.

Os meus braços, de tanto apertarem meu estômago, agora também pelo fato de eu estar a 110 km/h, foram relaxando, e eu percebi que minha blusa estava molhada de suor.
A música, que, de início, era Axé, virou funk. No caminho eu vi uns quatro cachorros atropelados, um sofá pegando fogo debaixo de uma árvore, pessoas esperando ônibus, e eu acho que, pelo menos até agora, doeu menos.

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