10/04/2010

Praça, Perna, Mar, Sexta Feira 9

"Quebre a Perna!" Na até então língua teatral, isso quer dizer: Boa Sorte. Não sei se isso funciona com música, mããs ...
Conslusão: não me desejaram que eu quebrasse a perna, e eu não tive boa sorte.
De contra regra, eu virei cantora. Isso mesmo que você leu: can-to-ra.
Isso sim, podia acontecer com outra pessoa: mas não. Foi comigo. (can, pode, entendeu?)

Enfim, estávamos todos no salão nobre da escola. Todos os que estavam participando diretamente do Poemar't, a porcaria de projeto bimestral da escola. Nós tinhamos, até então, menos de uma semana pra organizar as coisas. Nos meses anteriores eu escrevi sim, uma peça de Teatro sobre "a cultura que vêm das praças", o tema da nossa série, baseado na "Praça é nossa". Vamos frisar que a professora falou que podia. Então, quando a coordenadora leu, ela me xingou muito, e disse que poderiam me processar por causa disso, que aquilo tava horrível, e mimimi. Foi aí que o Gilberto caiu do céu (com dinheiro no meio, qualquer um cái), e ajudou a gente a fazer alguma coisa bem legal. Era essa coisa bem legal que estávamos ensaiando, e eu, que antes era responsável por tudo, agora era uma simples contra regra. Sim, eu estava satisfeitíssima. Nós tínhamos uma semana pra ensaiar, eram poucas falas, e estava tudo sob controle. Não podia estar melhor. Sexta feira e pronto: todo aquele tormento acabava.

Na quinta, a menina que estava cantando, não estava conseguindo pegar o ritmo. Cantou, cantou, e NECA. Ela, frustrada, foi pro recreio. Eu tenho certeza absoluta que ela tava puta mesmo porque eu falei que cantar a música mais lentamente era fácil. Deviam achar que eu não sabia de nada.

Sim, eles estavam errados.

Enquanto ela foi pro recreio, eu sentei do lado do Samuel (meus olhos são dele, -n) que tava tocando teclado e consegui cantar a música, perfeitamente. Eu juro que não era minha intenção cantar no dia. Eu só queria mostrar pra todo mundo que até eu que nunca tinha ensaiado com o Samuel conseguiria facilmente pegar o ritmo. E a Gabriela conseguiu também. Fomos cantando, cantando, e quando eu terminamos, tava todo mundo com o queixo no chão, olhando, e o Gilberto bateu e bateu palmas, gritou umas duas vezes "Lindo!". O Samuel me olhou e fez uma cara muito... convidativa para que eu cantasse outra vez. Foi o que eu fiz. O que nós três fizemos. De novo. E de novo. Ninguém tava acreditando que eu sabia cantar. E eu não acreditava que a nossa voz podia ficar tão boa junto.

Foi aí que a Yasmin chegou, e eu fui explicar pra ela. Que, provavelmente, eu cantaria com ela, o Guilherme e o Samuel (a voz dele é uma coisa, meu Deus *-*). Primeiro ela "finjiu" uma certa aceitação. Depois ela disse que não ia cantar, e o Guilherme foi na dela. Depois, ela soltou a frase que todo mundo temia ouvir: "ou a gente, ou vocês." Pronto. Foi a conta de eu ficar nervosa, das tapa na testa e andar em círculos.

O Gilberto veio todo atencioso, tentou convencer a Yasmin a cantar todo mundo, pôxa, ia ficar muito legal. Ela tentou. Primeiro que só tinha um microfone, e ela enfiou o coitado na boca, e só saiu a voz dela, ela saía do ritmo, e obtivemos nenhuma melhora. Depois o Gilberto falou mais um tanto, e PIMBA! de repente a música fica perfeita, com todo mundo cantando, eu, Gabriela, Yasmin, Samuel e Guilherme. Não podia ter ficado melhor. Juro que me deu vontade de chorar e, pela primeira vez eu abracei a Yasmin com muita vontade.

Na sexta de manhã, a primeira primeira pessoa que eu encontro no corredor é a Gabriela, e ela diz que não, não ia cantar. Bom, eu fiquei triste, mas né, o que eu podia fazer ?
No mesmo dia, fomos pro local da apresentação ensaiar. Foram as meninas que apresentariam a poesia que o Guilherme queria transformar em música, e nós, que íamos cantar: Eu, Yasmin e Guilherme.

Bom, eu quase morri quando subi no palco, e olhando pra aquele tanto de cadeira vazia, não consegui deixar imaginar aquilo tudo cheio de gente, me olhando, OMG. Erramos a letra, saímos do ritmo, o Samuel errou algumas notas do teclado, e os meninos do 2º e do 3º anos riram muito da gente. Eu fiquei suuuuper tranquila em relação a isso, porque eles não sabiam da parte do teatro, que tinha o Ramon (ou No mar, como preferir), como personagem principal. Nós tinhamos um truque na manga, e isso era ÓTIMO.

Vim pra casa, arrumei o cabelo, escolhi escolhei roupa, passei o vestido que eu ia usar, e o tempo passou muito rápido, fui pra casa da Rúbia pra gente ir.
Chegando lá, encontramos com a Isabelle, uma das meninas que partiparam do teatro.

Uma coisa muito estranha que ficou martelando na minha cabeça, foi que na programação de todas as apresentações, na nossa série, que é o 1º ano, ficou por último.

Enfim, estava marcado pra começar às 19 horas. Eu não estava muito preocupada com horário, foi fascinante ver meus colegas sem uniforme, no salto, todo mundo chique, maquiado, nossa. O Bruno de terno, o Guilherme de blazer, o Ramon de Charles Chaplin! Tirando a Yasmin, claro, que sempre tá toda maquiada e emperequitada às 7 da manhã, nem fez tanta diferença, FATO.

Em falar em Yasmin... de manhã ela me fala que eu TINHA que ir de vestido e o Gilberto confirmou. Eu estava lá, com meu vestidinho e minha sandalinha na minha mochilinha e a Yasmin chega de calça jeans e sapatilha. Bom, ÓTIMO.

ISSO SE ELA NÃO TIVESSE LEVADO VESTIDO, POR QUERER, SABE POR QUÊ?  (voz fininha) "aaah Ceres, você vai ter que cantar de calça também, o vestido ficou feio, neeem." De novo eu dei um tapa na testa e comecei a andar em círculos, dessa vez pra não socar ela até os olhos dela saírem pra fora. Bom.

Fui pra cochia, porque lá tava quentinho, e só pra irritar, eu fui lá no banheiro, vesti meu vestido, subi no salto, retoquei a maquiagem, e queria só ver quem que ia falar que eu ia ter que cantar de calça jens por causa da Yasmin. Não é possível que eu passei meu vestido à toa. Vamos lembrar que meu vestido é balonè e com um tecido suuuper difícil de passar. Minha mãe nã tava aqui na hora não, tá?

Fui toda poderosa, pelos corredores da universidade, jogando o cabelo, e menino que me vê todo dia na escola assoviou pra mim. ÓTIMO. Eu estava totalmente apta a cantar, e cantar bem. Minha autoestima estava mais alta que o Ramon, e eu já tava pensando na cara de nojo do povo quando visse a Yasmin cantando do meu lado de calça jeans, e eu toda potente.
Tirando, claro, o fato de eu estar com a mochila nas costas, tava ofuscanto. (momento narciso)

Já tinha começado a apresentação, com muito tempo de atraso. Primeiro foram os pirralhos do 6º ano, depois o 3º ano da manhã (demorou). Enquanto isso, o Bruno, que namora a Juliele (uma das surdas da minha sala), o que tava de terno, pegou a rosa da lapela do Chaplin, ajoelhou na frente dela, e eu sei, eles conversaram por olhares (romântico). As outras meninas que são surdas faziam gestos pra Juliele beijar o Bruno, enquanto ela pegou a rosa da mão dele, deu um sorriso e fez um gesto de "beijar!? aqui !? cê tá doido!?" Eu, com todo meu poder de sedução, estava sentada numa escada caracol que tinha lá na cochia, que não dava pra lugar nenhum. O Samuel, meu tecladista preferido,o dono dos meus olhos (o dono do meu coração é o Geziel, o Guilherme é o dono da minha mão mais máscula e futuramente eu vou me casar com o Victor. É que a linha do amor da mãos da maioria deles se junta perfeitamente com a minha; eu tenho váárias Almas Gêmas setelagoas, só pra esclarecer as coisas) é, então, o Samuel, embalado no amor do Bruno e da Juliele, vestiu o blazer do Guilherme, pegou a rosa da Juliele, ajoelhou na frente da escada... (não, eu não vi isso, eu tava dormindo), e alguém gritou: "Olhaaaa, o Samuel vai se declarar pra Ceres!" Foi aí que eu olhei pra frente, e tava lá, no espaço entre um degrau e outro o Samuel, com o braço direito esticado com a rosa na mão. Ele respirou, olhou no meus olhos e disse: "Ceres, eu te amo! Namora comigo?" Eu fiz uma cara de "Hã?". Aí a ficha caiu, e eu fiquei parada, olhando pro Samuel. Foi só um segundo pra mim cair na gargalhada. Aí ele disse: "É, sabia que você tinha alguma coisa com o Geziel!" Nessa hora, coincidentemente caiu uma pétala da rosa, ele pegou do chão, pôs na minha mão e disse: "Isso foi o que sobrou do nosso amor, Ceres!" e saiu andando. Chorei o choro mais forçado que eu consegui, olhei pra pétala na minha mão, e chorei mais ainda. O Samuel voltou, me abraçou, e a gente começou a rir.
Todo mundo ficou sem entender, todo mundo acreditou. Gente, eu? Namorar com o Samuel? Aaah tá.

De repente, a menina que tava perto da cortina da cochia olha pra trás, com uma cara tremenda. Todo mundo que estava na cochia fez silêncio. Se não fez, é que eu não ouvi mais nada a não ser a música que vinha do palco. Era a MINHA música. A música que eu ia cantar,a original (a minha era paródia), o 3º ano tava tocando. Eu fiquei sem reação. Dessa vez eu chorei de verdade. Juro que desabei, ainda mais que eu vi outro Chaplin, outra donzela, outro bloco de Carnaval... era praticamente o nosso teatro, em dobro. A platéia inteira aplaude a apresentação deles, e pede pra cantar de novo. Eram aplausos atrás de aplausos.

Foi aí que eu entendi. Entendi o porquê de terem colocado o 3ºano pra apresentar primeiro. Eu não conseguia acreditar naquilo que eu via, que eu ouvia. Todos ficaram perplexos. A professora Fernanda, a coordenadora do projeto, me viu chorando, e perguntou o que tava acontecendo. Dei uma má resposta pra ela e fui pro banheiro. Quem tava lá, gente da minha escola com quem eu nunca tinha conversado, vendo meu desespero, ficaram preocupados.

Acho que eu nunca fiquei tão nervosa na minha vida. Tudo o que a gente tinha feito. Juro que até agora eu não consigo entender o que que aconteceu naquele lugar ontem. Chegou perto de mim um menino do 2º ano, e me falou assim que todo ano o 1º ano levava ferro em tudo o que fazia na escola. Eram os calouros contra os veteranos, é impossivel.

Em nenhum momento eu pensei em desistir. Retoquei a minha maquiagem, reanimei o povo (foi o que eu fiz o tempo todo, toda vez que alguma coisa dava errada), e a professora conseguiu colocar a nossa série pra apresentar no lugar do 2º ano.

Chegamos, apresentamos, como se nada tivesse acontecido. Os microfones sem fio falharam, ninguém se interessava, claro, estavam vendo tudo pela segunda vez. Aí chegou a minha vez. Em cima da hora, o Guilherme não queria cantar também, e ficou sumido atrás da Luisa. Eu estava convicta que eu conseguiria. Subimos no palco. Na hora, também, não acharam um microfone pro Samuel. Estava tudo nas nossas mãos. Nas minhas e nas da Yasmin (de calça).

Não me concetrei nas 600 pessoas que estavam me olhando, todas, 1.220 olhos me olhando, todos, ao mesmo tempo, acompanhando o estalar dos meus dedos nervosos.

O Samuel começou a tocar a música. Eu não sabia pra onde olhar. Peguei na mão da Yasmin, e me virei pra ela. Eu já tinha ensaiado olhando pra ela mesmo, não devia ser tão difícil.

A música deslisava fácil, precisa sobre meus lábios. Parecia que estava sob êxtase, até que eu senti a Yasmin apertanto a minha mão, bem na parte da musica onde tínhamos dificuldade.
Nessa hora eu ouvia, estranhamente, só minha voz. Era o microfone, falhando. Me abaixei pra dividir o microfone com a Yasmin. Olhei pra primeira fila e vi a Maria Rita, intérprete das meninas, fazendo um sinal de positivo.

Minha mão não suava. Nós não errávamos, estávamos em perfeita sintonia.

Quando acabou, e agradecemos, esqueci que pelo menos poucas, viriam palmas.
Eu não conseguia parar de sorrir. Eu fiz minha parte.

(Quando eu descobrir o que aconteceu pode deixar que eu conto.)

Sim, eu queria (muito) ter quebrado a perna.
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