20/06/2010

Chuva Engarrafada


Iria escrever sobre calorias, minha insanidade e alienação temporária pós-refeição, mas não, não vou fazer isso. Fico muito puta comigo mesma porque isso me incomoda. E eu, ah, eu não faço nada. Me sinto idiota, e, para me punir, fico parada. E nesse ciclo vicioso eu estou, faz tempo.

Enquanto tentava me distrair disso, me transportei para dia 2 de Fevereiro de 2007.
Lembro até a roupa que eu usava. Eram umas duas da tarde. Estava no carro, com meu pai, no banco de trás; no lado do passageiro. Nesse momento, atravessávamos um cruzamento, pleno centro de Belo Horizonte. Era perto do Mercado Central.

Paramos devido ao engarrafamento. Chovia fino, o céu estava aberto, e o sol, fraquinho, me esquentava um pouco, passando pela janela fechada, naquele caos urbano.
Vinha um homem correndo na direção do carro, e, bufando, parou no nosso lado, em cima do passeio. Ele tinha a pele clara. Estava molhado por conta da chuva e jogava o cabelo liso pra trás. Depois apertou os braços contra o corpo, que, devagar, ia esfriando mais. Logo, batia os dentes. Era bonito, confesso.

O trânsito continuava parado, cauteloso, molhado.

O homem, por não conseguir atravessar, continuou ali, do mesmo jeito, por longos segundos.
Logo atrás, correndo dentre os carros, segurando um guarda-chuva transparente, vinha uma mulher. Tão bonita quanto o homem. Também tinha a pele clara, e os cabelos lisos e escuros. Eu achei até interessante o jeito com o qual ela corria, esvoaçando os cabelos, e molhando a barra da calça.
Parou, do lado do homem.
Ele não a percebeu. Era mais baixa que ele, tinha que olhar pra cima pra vê-lo.

Devagar, chegou perto dele, e colocou o guarda-chuva de um jeito que também o cobria. Ele, por um momento, se assustou. Passou o braço molhado em volta dos ombros dela, para os dois ficarem debaixo do guarda-chuva. Eu não podia ouví-los, mas sei que nada disseram. Apenas sorriam, cúmplices.
O trânsito aliviou um pouco.
Meu pai, arrancou com o carro.
E eu, nunca mais esqueci.

6 comentários:

  1. Ainda bem que você não escreveu sobre calorias e suas alienaçãoes pós-refeições!

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  2. Querida Ceres,
    Você se apega tanto aos detalhes, que uma coisa tão pequena parece ser uma história imensa.
    Lindo.

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  3. Lindo blog!

    Parabéns pelo não-desabafo-padrão! haha
    beijos.

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  4. Ainda leio seu blog, viu ? s2

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  5. Perfeitaaa! Minha detalhista preferida!

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