31/07/2010

70 quilômetros

Seria egoísmo meu pensar que quando eu lá chegaria, tudo estaria do jeito que eu deixei. Egoísmo e hipocrisia. Para falar a verdade, não havia mudado muita coisa. Era o mesmo sofá azul-marinho no meio da sala de chão de madeira; o móvel - solitário apesar do sofá - sem TV em cima, triste. As janelas, tão grandes quanto eu conseguia me lembrar, a mesa... tudo. Tudo aquilo me trazia naquele momento (e agora, por lembrar) uma nostalgia imensa. Tão grande quanto a minha rua de um quarteirão que um dia eu quis ladrilhar. Por mais que, a vida inteira eu ali morasse, naquele dia no qual eu lá cheguei, eu sentia, mais do que nunca, que tudo aquilo que eu amo não pertence mais a mim. E que dor isso me dá! Que dor!
Dói saber que quem eu deixei ali pertence a mim em partes, que venho perdendo todos, aos poucos. Venho perdendo um pouco de mim mesma no namorado da amiga que um dia não quis amar, na solidão da outra que se recusa a fazer o que sempre fez, nos lábios de quem eu acredito que sempre amei... Como dói voltar e não sentir que ali você mora, que em algum lugar, a exatamente 70 quilômetros de distância está uma vida, SUA VIDA!
Seria egoísmo meu pensar que quando eu lá chegaria, tudo estaria do jeito que eu deixei. Egoísmo e hipocrisia. Para falar a verdade, não havia mudado muita coisa. Eram os mesmo sofás amarelos, distribuídos de forma diferente pela sala, o móvel, feliz, acompanhado, com uma TV em cima, os livros, o computador. Aquilo não doía,  não me dava nostalgia, me dava até, conforto. Eu morava ali, numa rua de não sei quantos quarteirões, que um dia eu vou querer ladrinhar. Tudo aquilo pertencia a mim. Inteiramente, com todas as partes, frações e vontades possíveis. Só é novo. Ainda. As janelas, menores, me mostravam nada mais, nada menos, que uma vida. A MINHA vida. Daqui setenta quilômetros rua abaixo direita, esquerda, e tudo mais, estão minhas lembranças. Meu passado. Essas Sete Lagoas não são um motivo para que eu esqueça disso. Por mais que doa.

19/07/2010

Pedestal


Vou tentar. Vou tentar ouvir nossa música e não precisar de apertar e puxar a manga da minha própria blusa, só para parecer que dói menos; vou tentar deitar a cabeça no travesseiro, e não chorar sua falta, não colocar o amor, o seu amor, em cima de um pedestal, acima de todas as coisas. E depois (nossa, que surpresa!), amar sozinha. Te amar sozinha. 

Vou tentar não ter que voltar, apesar de não precisar. Afinal, fui sempre sua. Sempre serei, com meu, seu, amor em um pedestal, te amando sozinha. Não chorar, nunca mais chorar, por não me ver em suas fotos.Vou me entender com meu vazio, com a minha distância obrigatória. Te amando, sozinha, tentando.
Espero, um dia, quem sabe, conseguir.


17/07/2010

Nós, para nós


Eu estava muito, mas muito ansiosa. Sentada à cama, eu colocava as mãos sobre minhas pernas, trêmulas, e cantarolava uma música qualquer, pra ver se me acalmava.
Era difícil acreditar na possibilidade de vê-lo de novo. Melhor do que vê-lo, seria fugir. Fugir para ele, fugir com ele.

Eram seis da manhã, o sol pairava baixinho, iluminando as poucas coisas que eu queria ver pela ultima vez.

A casa toda dormia. A mochila, cheia, estava jogada num canto. Eu a olhava, e me dava uma sensação inexplicável.

A cada dois minutos me levantava da cama, e, inquieta, olhava pela janela de novo, para ver se ele havia chegado. As àrvores, os pássaros, tudo parecia mais bonito, vistos da minha janela. E ele, nada.

Pela sexta vez, me sentara na cama novamente. Meu coração palpitava. Ouvi, baixinho, um ronco de um motor. Era a única coisa que eu conseguia (e queria) ouvir. Uma moto.

Voltei correndo para a janela, e lá ele estava. Não podia me conter, de tanta felicidade! Ele sorria pra mim, cúmplice, ao mesmo tempo que também mostrava nervosismo. Eu corri para dentro do quarto, peguei a mochila e joguei pela janela. Logo depois, saltei.

Montei, atrás dele, naquela moto preta, relusente, e o abracei forte. Sua jaqueta de couro esquentava, de forma especial, meu peito. Ele alisou com uma das mãos a minha que o estava apertando.

Ele deu a partida, eu sentia o coração dele pulsar nas minhas mãos. Ele também sentia o meu, em suas costas. Fomos estrada afora, felizes.Eu, fugindo para ele, e ele, para mim. Fugindo, nós, para nós.

Pauta para o Projeto How Deal

15/07/2010

E só


Tenho a sensação de que o que sai dos meus dedos, da minha cabeça, da minha boca, do meu coração não pertence a mim; pertence a eles próprios, simplesmente.

Vontades que pertencem à próprias vontades, fome que pertence à própria fome. Até a sensação de estar perdida, sem lugar, pertence à ela mesma, de modo a me entregar, de mão beijada, de bandeja, à minha eterna e presente alienação.

Minha vontade de me apaixonar à sexta vista (não à quarta, à terceira, ou à primeira), medo de dar errado, de não fazer, da saudade que mata, da roupa que não serve, da ansiedade, e do desejo de morte temporária. E só.

E o "só" é capaz de me deixar um "nada", de me deixar um "desespero".Empurrar a cama sonho a fora, abraçar o travesseiro de um jeito de fim de semana, amar como se fosse a ultima das semanas, se contentar com a falta de coerência e coesão, não ligar pra ambiguidade, e só. Só.
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