09/09/2010

Um por Vinte e três


Ele segurou meu rosto com uma mão só, e foi chegando a boca dele perto da minha. Eu fiquei parada, do mesmo jeito que estava enquanto falava que iria vender toda a minha coleção de revista Capricho. Não queria pensar demais, porque, se pensasse, viraria o rosto. Não pensei, não virei o rosto, e ele me beijou. Me beijou, devagar, do jeito que ele sempre fazia, mas eu tinha esquecido de como era. Ele parou e ficou esperando minha reação. Tentei não esboçar nenhuma. Ele sorriu pra mim, eu sorri para ele, que se virou, e saiu de perto. Suspirei.
Enfiei todas as vinte e três revistas dentro da minha mochila. Estava convicta de que não precisaria mais delas. Estava convicta de que não queria mais saber o que o Justin Bieber ou a Lady Gaga andavam fazendo, e que, meu estilo já estava pronto, dentro de mim, não naquelas páginas coloridas. Fui pesada, vagarosa e falante ao lado da Rúbia; e entramos na loja onde havia uma placa que dizia "vendemos, trocamos, compramos."
No fundo do recinto, onde eu podia ver estava um homem magro e de aparência que quase não me agradava de certa forma. Esperei, calada, que ele me desse atenção.Uma mulher com nome diferente (e que tinha o número começado com 9999) fazia o favor de puxar a atenção do homem, por causa do Freddie Mercury. "Só  Freddie Mercury, o resto não interessa."
Rúbia andava sala afora, lendo gibi.
- Você compra revistas; não compra?
- Compro.
- Eu tenho vinte e três revistas Capricho.
- Não.
- Não?
- Deixa eu ver.
Coloquei, em pilha, as revistas na frente dele, que por sua vez demasiado analisou-as.
- Essa daqui, essa não... - dizia enquanto separava alguma delas.
Depois colocava tudo em uma pilha só, dividia-as novamente... E eu trabalhava forçadamente a minha paciência diante daquilo.
- Dez reais, e essas daqui não. - disse, empurrando uma pilha menor.
- Dez? - olhei pra Rúbia.
- Dez!?
- Dez. - ele repitiu, calmamente, pedindo um balde d'água cabeça afora.
Contei as revistas. Na pilha que ele escolheu, haviam dezessete.
- Gastei 85 reais nelas.
E ele me explicou que precisava de ter mais lucro que eu, e que foi burrice minha gastar tanto dinheiro com revista (minha conclusão).
O telefone tocou, e o magrelo estrábico atendeu com simpatia alguém que procurava um livro do José de Alencar.
- Você pode escolher outra coisa. - disse, desligando o telefone.
Saí sala afora, distraída com aquele mundo de revistas e livros. O cara acendeu as luzes para mim. Feliz Ano Velho, Blecaute, O Meu Pé de Laranja Lima.
Eu ignorava tudo o que me pareceria muito óbvio para opção de escolha.
Conversava com o magrelo enquanto percorria a sala. Rúbia continuou lendo gibi e "rindo feito o Marcos".
O alguém que ligou procurando o José de Alencar apareceu, e comprou o livro.
- Agora o magrelo burguês vai registrar seu lucro - falou de modo irônico o magrelo que pra mim é louco, enquanto digitava em seu computador.
A essa altura Rúbia já tinha se levantado, e se proposto a me ajudar.
Atrás de algumas prateleiras estavam algumas revistas Playboy fazendo montes perto de nossos pés. Rúbia me cutucou com gentileza, e quando eu a olhei, ela apontou para o chão. Analisei aquilo tudo, sem colocar as mãos, considerando o fato de nunca ter folheado uma revista daquela. Estava habituada à Capricho, sabe como é. Vi, escrito de vermelho e em letras grandes a palavra "Cléo", perto de uma coxa carnuda. Cléo Pìres. Não exitei em pegar a revista, e folhear com cuidado.
De algumas coisas você pode ter certeza (caso nunca tenha lido uma Playboy): Não é só pornografia. As fotos são muitos artísticas, bem tiradas e de muito bom gosto. Homens compram revista com conteúdo, de certa forma.
Larguei a revista grossa e proibida no chão, onde estava antes, bem pertinho do meu pé.
Me levantei, e estava, na prateleira: O Beijo.
Peguei, coloquei debaixo do braço, girei por algumas prateleiras ainda, e acabei levando o livro dos beijos. Um por vinte e três. Ele veio solitário dentro da minha mochila, ocupando o lugar das vinte e três revistas Capricho. Tomara que ele seja bom, porque ele me fez lembrar de hoje de manhã. E quer saber? Se ele me beijar de novo, eu não vou me incomodar nem um pouco.

imagem: we♥it

4 comentários:

  1. Ah menininha Cresceu,não se enteresa mais por simples fofocas de revistas tipo caprixo, se disfez delas, e talvez até esta descobrindo um novo amor,um amor que talveznão seja PLATONICO igual os outros,um amor verdadeiro,com mergulhos de cabeça,e beijos,beijos com desejos de querer sempre mais daquela pessoa, pode ser coisa da minha cabeça, mais você amiga sabe minha opinião disso tudo, ja te disse que passei por isso de outra maneira, mais estou aqui sempre pra te dar conselhos e te abraçar, seja lá nos momentos bons e ruins. TE AMO, seu texto esta demasiado verdadeiro, o bom é que você encherga ja verdade de LONGE ! *-*

    ResponderExcluir
  2. Ai, que texto! Conheci seu blog há pouco tempo e já li quase tudo, mas esse é, decididamente, um dos melhores. Você é demais, Ceres, e realmente espero um dia em que terei postagens suas recentes ♥

    ResponderExcluir
  3. Você tem um filho e cria várias espectativas sonha de um dia seu bebê vai ser a pessoa mais feliz do mundo,realizada.Que nada vai atrapalhar sua vida.Todos seus desejos se realizarão e que a cada passo a árvore da vida vai ficando frondosa e gerando frutos. De sabedoria de inteligência, dignidade, responsabilidade e beleza.E você fica feliz em saber que não se enganou, que aquele ser que você pos no mundo é digno de fazer parte da sua vida,pessoa brilhante, carismática sensível e amorosa e isso faz com que você seja agradecida a Deus por deixar que alguém tão maravilhoso faça parte da sua existencia. Não sei filha se esse era o melhor lugar pra que todos saibam o quanto eu te amo.

    ResponderExcluir

© 2014 Conspiração Vital - Todos os Direitos Reservados | Design por Ceres Bifano, Diagramação por  Matheus Pacheco.