16/09/2010

Café para Dois


A única coisa que eu estava tentando fazer, naquela hora, era esquecer o quão eu era frágil em relação à ele. Me sentei tonta à mesa do café. Tirei da bolsa meu livro, e dependurei a bolsa no encosto da cadeira de madeira. Rapidamente, larguei o livro em cima da mesa, acendi um cigarro, e fechava os olhos devagar, quando me atenderam:
- O que você deseja? - me perguntou uma menina loirinha.
- Café. Forte e com açúcar.
A mocinha de roupa curta saiu com um bloquinho de papel na mão, rebolando.
Abri meu livro, mas não conseguia me concentrar em uma palavra se quer.
Não conseguia parar de pensar no ônibus. Não conseguia parar de pensar em quem lá entrou e me deixou. Tirei o cigarro da boca, e amassei-o contra o forro branco da mesa.
E eu chorava. Chorava por ele ter me deixado. Chorava pelo fato de a ausência dele me doer tanto. Chorava, chorava, e chorava.
A mocinha loirosa e bunduda voltou, e colocou a xícara na minha frente.
Esfreguei os olhos com certa raiva, e quando vi, a loirinha não estava mais ali.
Peguei a xícara com as duas mãos, e a única coisa que eu quis foi me afogar naquele café que nem o açúcar eu joguei. Num gole, a xícara estava vazia.
Um ardor incômodo eu encontrava na garganta. Coloquei minhas mãos frias no pescoço numa tentativa frustrada de me aliviar.
Sentou-se alguém a minha frente, sorridente.
- Você? - eu disse, rispidamente pra minha companhia.
- E quem você queria que fosse? - ele disse, ironico.
- Você sabe muito bem quem eu quero, seu idiota! - eu gritei, chorando novamente.
Ele me olhou com certa misericórdia, mexeu no cabelo, suspirou e disse:
- Desculpa, sério, desculpa.
Eu levantei o olhar pra ele, e tentei esboçar um semblante melhor.
Ele chamou a loirinha de volta, e pediu mais dois cafés.
- Desculpa, mas não consigo mais tomar café, não dá mesmo. - eu disse.
Ele me olhou, e deu uma risada curta.
 Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro rumo. 
A loirinha saiu rebolando de um jeito no qual eu já me acostumara, e ele acompanhou ela com os olhos por uns segundos.
Eu, para minha própria surpresa, comecei a rir dele.
Ele sorriu de volta, um sorriso que eu descobri que precisava ver naquele dia.
- E então, - ele disse, depois da minha risada- como você está?
- Estou bem, eu acho. Você ficou sabendo?
- Que ele foi embora?
Permaneci calada.
- Fiquei sabendo sim... eu sinto muito. - ele esboçou uma cara triste. - Mas posso te falar uma coisa?
- Pode. - eu disse, em tom baixo.
- Não te tiro o direito de ficar triste... mas espero que você não dê mais tanta importância pra isso.
- Não consigo.
- Ceres - ele respirou-, você sabe o por quê de eu estar falando isso pra você.
- Sei? - indaguei, sem saber mesmo o motivo.
- Eu sei que sabe.
Ele levantou de onde estava, e arrastou a cadeira, com cuidado pro meu lado. Se sentou nela.
- Era aqui - ele disse, olhando para o chão, onde estava-, era aqui que eu estava, do seu lado. O tempo todo. E isso não vai mudar agora, tá bom?
- Que bom. - eu respondi, sem graça.
Ele passou o braço esquerdo em volta do meu ombro; e eu me permiti a deitar no ombro dele, segurando a sua mão do outro lado.
- E quer saber?
- Quero.
- Espero que um dia você sinta por mim o que você sente por ele agora.


p.s.: Este texto é só um conto. Apenas usei meu nome.
Ah, e eu não fumo.

Pauta para o projeto Bloínquês
Imagem: we♥it

4 comentários:

  1. uau, parabéns mesmo, amei o texto e as palavras que usou e como as usou, simplesmente perfeito, amei *-*

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  2. pude sentir toda a emoção, escreveu muito bem =)

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  3. Perfeito, pude me imaginar(Verbo)... ow não...

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