19/06/2012

Tatuagem


Entrou no quarto de Marcelo e mirou-se no espelho. Natália estava corada, mas sua maquiagem continuava perfeita. Seus lábios estavam ainda mais vermelhos do que antes, um rubro de rosa recém nascida, e seus olhos continuavam com um marcante contorno negro cor de noite. Ajeitou seu cabelo por inquietação disfarçada e sentou-se na cama.

Olhou para as paredes personalizadas do quarto. Havia pôsteres em cada canto que se era possível enxergar, sendo Marcelo um grande fã do rock. Havia uma quantidade tão grande de bandas ali penduradas que Natália começou a se perguntar se alguma delas não seria item de colecionador, raridade que qualquer músico daria o sangue para ter. Em meio a tantos heróis musicais, a garota não conseguia deixar de se sentir uma leiga. Se perguntou se era mesmo tão merecedora de estar com Marcelo, se a dona do coração dele não deveria ser outra.

Ele então entrou no quarto e trancou a porta. Olhou-a daquele jeito mais Marcelo impossível de olhar, e ela correspondeu. O rapaz estava com uma regata escura de aparência desleixada mas que, quando se olhava melhor, qualquer garota reconheceria o quão estilosa era: tinha algumas estampas de fotos antigas e seus cortes nas magas e na gola eram daquele tipo de corte caseiro mal feito. Natália jamais usaria uma roupa com um corte como aquele, mas vê-la em alguém, em especial alguém como Marcelo, fazia com que algo em seu corpo gritasse em reconhecimento a tamanha beleza. Entretanto, ela sabia que tudo aquilo era natural. Marcelo só usava jeans velhos e surrados e gostava de cortar a maior parte de suas roupas. Tinha sempre aquele aspecto de sujeira natural, entretanto maravilhosamente bela. Seu próprio quarto tinha pichações nas paredes que davam essa sensação.

Natália pegou a garrafa da mão direita de Marcelo, seu amado Marcelo, como podia ser assim tão belo? e tomou um gole. Dois goles. Três go-ei! onde você pensa que vai desse jeito? Ele interrompeu puxando a garrafa de sua mão. Deixe pra mim, pô. E tomou um gole. Natália recuperando-se da zonzeira do abaixar-se repentino de cabeça, tentou pegar a garrafa de volta. Marcelo, que já estava sentado a seu lado na cama, se aproveitava e afastava a garrafa para longe dela com o braço, ou então para o alto, enquanto a garota insistia em tentar pegar. Um magnetismo repentino impediu os dois de continuarem a brincadeira, e Natália percebeu estar ajoelhada entre as pernas do outro.

Os dois se olharam um olhar que expressava tudo, uma emoção tão grande que não demonstrava outra coisa senão a história dos dois. Não namoravam e não queriam namorar. Estudaram juntos por algum tempo e de repente, há alguns meses, os laços de amizade e toda uma série de coisas em comum entre eles acabaram por reaproximá-los. Marcelo se tornou um cachorro, foi a primeira conclusão de Natália. Na segunda ele era um cachorro interessante, um cachorro com papo. Na terceira eles já eram amigos e de papo em papo confidentes. Concluíram que Natália afinal não era melhor que ele em nada, pois em dignidade ambos eram igualmente ruins.

Naquele tudo do olhar repentino Marcelo reconheceu por fim a garota com quem estudara e que nunca era vista sozinha. Reconheceu a insegurança daqueles olhos que pareciam implorar para que ele a possuísse e a pegasse para si. Não era uma insegurança de garota mas agora uma insegurança de mulher. Natália agora tinha necessidades de mulher, e num ímpeto o garoto que agora era homem aquiesceu a tais necessidades. Suas línguas dançaram no ritmo certo, numa sede de quem não prova água tão saborosa há muito.

Natália sempre intrometida interrompeu o beijo feroz e tomou o maior gole de vinho que sua boca conseguiria aguentar. Olhou para os lábios de Marcelo manchados de seu vermelho de rosa juvenil, e fê-los abrir-se suavemente. Encheu também a boca dele, como se abastecesse suas providências para um longo período de viagem. O homem então engoliu o álcool do amor de Natália. Temporário ou não, ele estava sendo entregue com uma paixão que a muitos namorados faltavam; não poderia ser outra coisa senão amor.

Os dois jogaram-se então na cama, a mulher encurralada sofrendo as agonias de sentir seu desejo consumando-se com ela em estado de prisão. Queria lutar, mas queria mais que isso ceder. Não queria bancar a feminista agora, pois não conseguia sentir outra coisa senão desejo por enfim ter Marcelo. Enquanto sua garganta era acariciada pelos lábios dele, ela perdeu-se em sonhos que de alguma forma eram tão reais - ou seria uma realidade que de alguma forma era onírica? Sentiu os fios do cabelo de Marcelo fazendo cócegas em sua face, a barba em sua clavícula. Agarrou-se ao braço dele e perdeu-se em meio às cores de suas tatuagens. Não quis fechar os olhos, preferiu olhar para o nada e sentir-se sendo unida enfim ao corpo do homem. Queria ser cor, queria ser tinta. Queria sentir-se a pele dele. Natália queria, de alguma forma, que aquele momento jamais terminasse, queria unir-se e se tornar as tatuagens de Marcelo.


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