14/06/2012

Zé da calçada


As folhas nunca deixavam de cobrir o chão. Tão exaustivo para José ter que varrer sua calçada todos os dias. Maldito outono!, ele dizia, Maldito outono!, ele pensava. Maldita estação que só serve para me dar mais trabalho!
            
Mesmo assim, todos os dias José acordava cedo para varrer a frente da sua casa, para deixar tudo limpo e bonito. Não podia deixar que as pessoas que passassem pela sua rua, ou até mesmo seus vizinhos, achassem que ele era um imundo. José encarava as folhas pensando o quão bom seria se elas fossem dinheiro. Ah se fosse dinheiro aquela enorme árvore podia se acabar e ele nunca se reclamaria de ter que varrer todas aquelas folhas! Mas não, nem isso a natureza fazia por ele.
            
Todos os dias olhava para os galhos secos e velhos lá no alto, em contraste com um céu cinzento. Encontrastes com o céu cinzento tu, José, diziam as nuvens. Cinzento por não deixar que o sol encontres contigo, que de tanto se esconder em casa já não sabes o que é luz. José ignorava e voltava a varrer as folhas meio vivas meio mortas.
            
Você as odeia porque no fundo sabe que elas são você, um segundo José pensava dentro dele. Meio vivo, meio morto. Meio dourado meio escurecido. Caído, apenas esperando ser varrido. Esperando adoecer e usar isto como desculpa para seu medo de continuar vivendo.
            
O sol não nasce para quem não o quer, o vento começou a soprar em seus ouvidos todos os dias. A luz não brilha sobre quem não luta. Ninguém se importa com os guerreiros que antes do início da batalha já se fingem de mortos: uma hora ou outra, no furor que está por vir, o guerreiro acabará meramente esmagado. Tu queres dinheiro sem ter o que fazer com ele. Queres tudo para si sem motivação.
            
Zé não deixou-se abalar. Todos os dias limpava sua calçada, limpava as folhas que afinal o eram. Decidiu ignorar as nuvens, decidiu ignorar os ventos. Continuou nisso mesmo apesar das insistências de que ele era afinal tão vaidoso para com seu jardim por achar que nada mais valia a pena a não ser morrer como sendo o homem da calçada bonita. Os ventos lhe diziam que sua vida era miserável, que sua teimosia deveria mudar.
            
O homem não deixou-se abalar. Sentia-se fraco, sentia-se sozinho, sentia-se judiado. Jamais deixaria de ser o José do cotidiano que nada mais fazia a não ser um café e esperar pelo dinheiro de sua aposentadoria, não fosse o dia em que enfim aquela árvore velha caiu na frente de seu portão. Me tire agora, dizia o enorme tronco. Se não me queres em seu caminho pois use sua força e me empurre, me leve para longe. Sou tão fraco, José retrucava, não sou nada perante a força da natureza. Não é isto que queres me mostrar? Pois agora não saio mais de casa, ótimo.
            
Ele viu sua fama ser levada embora enquanto isolava-se em sua miséria. O carteiro não conseguia chegar em seu portão para lhe entregar as correspondências, ele não conseguia receber visitas e sequer ir pegar seu dinheiro no banco. O governo demoraria demais para retirar aquela maldita árvore dali. Aos poucos o Zé-da-calçada-limpa ganhava a fama de a pior calçada da vizinhança.
            
Um dia o sol colocou-se sobre sua cabeça. O dia estava lindo e ele se sentia jovem. Sentia raiva, como quando era jovem e combatia na guerra. Notou finalmente o quão miserável era o seu viver amedrontado e recluso, ignorante demais para perceber que os tempos eram outros. Lembrou-se que não era tão coitado como havia se convencido de que era com os novos tempos chegando junto com as rugas. Notou então que sua vida sempre fora a guerra e a batalha. Se o governo não precisava mais dele, se ninguém precisava mais dele, José teria que fazer por si. Sua casa era sua única parceira e o tronco então seu inimigo. O Zé da calçada compreendeu então que o tronco estava lhe reensinando o que era viver ao passo em que agia como seu inimigo, mas era inimigo porque ele o fizera assim.
            
A árvore afinal era o homem, ela se punha contra ele porque ele se condicionou a ser inimigo dela sem razão. O homem decidiu então que removeria aquela árvore para o seu bem, mas plantaria outra exatamente no lugar onde aquela antes estivera. Os raios de sol o fizeram enfim compreender que a natureza, dele e de tudo, fora feita para ser eterna e não lamentada.


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