02/10/2012

Alana e a felicidade



Alana só queria ficar um pouco mais. Não queria um romance ou qualquer coisa coisa do tipo, não queria um relacionamento. Alana apenas gostava daquele beijo e de estar com ele, apenas queria estar com ele o tempo que fosse possível. Aproveitar um forte sentimento que a engolfava e momentos de felicidade com ele. Queria mais daquele abraço, mais daquele beijo, mais daquele prazer e mais daquele garoto. Seria dele pelo tempo necessário e diria as palavras de amor e conforto conforme mandasse seu coração e, quando o sentimento de ambos começasse a esfriar eles continuariam como amigos seguindo as próprias vidas e pronto. Não havia problemas em querer ser feliz e desejada.
            
Ela tinha um compromisso consigo mesma e queria sentir-se bonita e amada o máximo de tempo possível, independentemente se seria amada por si mesma ou pelos outros. Queria estar em todos os lugares e estar sempre fazendo amigos, queria que todos quisessem acompanhá-la onde quer que fosse e mesmo assim poder ficar sozinha quando quisesse também. Alana se atrasava para sair por estar se arrumando mas mesmo assim não se importava quando passava um vento forte em seu cabelo: sua vaidade consistia apenas em sentir-se bem consigo mesma. Se seu reflexo a dizia que estava bonita ou se seu sorriso dizia que estava feliz já bastava. Ela era bonita o suficiente para independentemente dos desastres que acontecessem com sua imagem Alana saber que sempre haveria alguém que a quereria -- talvez não no lugar onde ela estivesse no momento, mas há no mundo pessoas o suficiente para gostar de todos os tipos de beleza possíveis. Alana sempre teria quem a achasse bonita, fosse um ficante ou uma amiga.
            
E por ter consciência do quão especial ela era apenas por ser ela mesma, Alana era sempre especial. Ficava com quem queria o tempo que queria e não deixava as pessoas se intrometerem em sua vida. Todos queriam seu msn, seu twitter, seu facebook. Alana dificilmente saía de uma festa sem ter conseguido alguns números a mais em suas redes sociais. Ela queria apenas a si e por se querer todos a queriam também. Às vezes entristecia-se por conhecer sua imensidão. Um dia ficarei velha, pensava, e dessa forma provavelmente solitária, mas não consigo gostar de alguém mais do que gosto de todos -- será que um dia aparecerá alguém especial o suficiente para mim a ponto de eu querer abandonar esse meu direito de ter todos os que quero ao mesmo tempo?
            
Alana levantou-se da cama e começou a se vestir. Preciso ir embora, disse, ou não chego no trabalho ainda hoje. E que mal há em não chegar no trabalho? ele desafiou, apenas fique aqui comigo e eu te darei tanto amor que você não precisará de mais nada. Alana respirou fundo, era sempre assim. Já era mulher e não mais se iludia, sabia que ninguém a daria tanto amor quanto ela própria. Sabia que ele correria atrás dela por um bom tempo e que se entregar não havia sentido -- ele não era suficiente, a vida para ela era algo mais do que viver um único grande amor e afagos noturnos caídos na rotina. Se entregar tão jovem representava ser reduzida a um móvel, a empregada gratuita uma vez que logo seria esquecida e então as pelancas começariam a cair tornando difícil se libertar de tal escravidão. Alana não nascera para ser esposa, era a certeza que ela tinha quando se vestia após essas transas casuais. Ela não queria ser eterna ao lado de alguém, apenas queria ser eterna. O homem que afinal a observava deitado na cama a tornava mais feliz do que qualquer pessoa no universo, mas ela sabia que eles não foram feitos para o longo prazo -- com o tempo ele também saberia. As flores das juras de amor morreriam com o tempo e fazer apostas tão altas faria apenas a felicidade e a paciência dos dois morrer junto. Eles eram a felicidade agora, mas logo isso acabaria e o que eles tinham juntos não seria suficiente para prorrogar. Ambos tinham um caminho completamente diferente e afinal não havia problema em aproveitar enquanto ambos os destinos se cruzavam e seguiam a trilha juntos. Mas Alana deixaria-se arrastar quando as linhas se separassem.
            
Terminou de se vestir e foi beijá-lo. Disse um último eu te amo que era o mais sincero que ela poderia dar em todos os milênios que eles possivelmente poderiam passar juntos. Ela o amava agora como nunca amara ninguém, assim como fora com o último e seria com o próximo. Ela o amava naquele segundo e queria ficar presa nele antes que tudo acabasse, porque afinal aquele segundo era o amor puro. Ela o amava porque era bonito, criativo, popular e a amava. Ela o amava porque ele era bom e gentil em sua própria forma. Ela o amava porque sentia que o compreendia e a depressão em sua alma era a maior do mundo naquele único segundo em que ela lembrava-se que um dia ela compreenderia o suficiente para decepcionar-se e não mais amá-lo de tal forma. Deprimia-se porque um dia tudo mudaria e mesmo assim o amava pois ele a amava mesmo sem saber nada sobre ela. Alana o amava porque isso revelava uma ingenuidade infantil no homem que tanto se fazia de durão, via nos olhos dele uma garotinha que se entrega a um amor qualquer. Via o quão perdido ele estava por querer tanto se entregar a alguém e ter uma pessoa que parecia ser tão linda e especial quanto Alana em seus braços. E por tudo isso ela o amava, mas sabia que não era bem o que ela queria no fundo de seu coração. Os homens eram todos assim, eram sempre crianças que não terminaram de crescer e queriam todas as noites anestesiar a solidão de viver em amassos com mulheres quaisquer que os fariam sentir-se o único homem do mundo. Todos queriam sentir-se poderosos por saber que a vida era a maior decepção que se podia ter. Apesar de tudo, Alana sabia que isso não era por maldade, mas ela não era muito do tipo que lamentava sua existência fazendo sexo com pessoas quaisquer; ela transava com quem queria porque queria, pelos mais variados motivos, na esperança de um dia ser tão completa consigo mesma a ponto de conseguir mudar alguma coisa, seja no mundo ou na vida de alguém. Ela sabia que não era menos medíocre por isso, mas sabia que talvez fosse ao menos mais corajosa, por afinal enfrentar todos os dias a felicidade buscando domá-la.



Um comentário:

  1. Adorei o texto, super interessante.
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