31/10/2012

Morta


E então você estaria por aí, passeando com a sua nova namorada. Cinco anos se tornariam vinte, e logo ela seria sua esposa. Durante a semana ela se encontraria na porta da escola dos filhos de vocês com aquelas que antes eram nossas amigas. E eu estaria aqui, de fora, apenas observando tudo. Porque eu fui o que você precisou, porque eu fui para o que você precisou quando precisou. Mas então você me jogou, como uma uva inútil que já dera tudo de si para fazer o tão saboroso vinho.
            
Vocês dividiriam uma cama para o simples propósito de descansar. Sua pistola está ficando velha, e o tempo está se acabando. Eu fui apenas a pistoleira contratada. Fiz todo o serviço sujo, você me pagou com o que pôde porque, afinal, talvez eu goste de ser suja. Mas na torre de vocês não cabe sujeira, tudo o que é podre é jogado fora ou escondido sob o tapete. Bom, eu apodreci como um maracujá velho.
            
Meus momentos eternos continuam assim o sendo e por mais que você diga que sente falta deles, eu serei para sempre apenas uma boa lembrança. Uma lembrança com furos o suficiente para impedir que eu me torne seu presente, feche o ciclo do infinito que dissemos um dia que seríamos. Eu sou a foto mofada no fundo da última gaveta do armário do quarto secreto. Em sépia, comida pelas traças. Mas continuo aqui, o espírito postado ante seu destino. Os olhos cabisbaixos, o suspiro de lamento. O personagem do outro lado do véu, coberto por um manto que o impede de me ver. O passado iludido, esperando por algo que jamais acontecerá.
            
E eu olho pela janela, vejo o filme que antes fomos. Vejo o filme que antes fui. Tantos anos inconsequentes e afinal a vida é apenas uma circunferência. Eu me encontrei, e ao fazer isso senti o peso de se orientar antes do resto do filme. Fui o personagem perdido, jogado para fora do enredo principal por carregar spoiler demais em sua aura. Encarcerado, por descobrir que o encontro pessoal nada mais é do que uma aceitação da solidão. Triste estar vivo e saber que não se está vivendo a mesma vida escrita para todos os personagens que deveriam nos acompanhar. Solitário ser a atriz que continua a acompanhar a série mesmo após a morte de seu personagem. A atriz deveria seguir em frente, mas no fundo ela sabe que sua obra-prima já se foi.




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