24/01/2013

MAIS UMA MORTE NA PERIFERIA DA CAPITAL



Estava andando distraidamente pela rua quando chegaram atirando. Dois de moto no rapaz sentado na calçada. No choque logo que os vultos desapareceram no horizonte máximo que se pode enxergar no horror e na noite, começou a gritar ordenando que ligassem para a polícia, desesperada. Vizinhos caíam pelas janelas ou se embestavam porta afora, as crianças eram escondidas. Todos queriam saber o que havia acontecido. O que havia acontecido?
       
Chegou a polícia e também os investigadores, todos queriam saber além do que a própria mulher era capaz de compreender. Horas de inferno na delegacia -- o que afinal acontecia? A culpa era de bandido ou era de polícia? A culpa era de traficante ou era de milícia?
       
Centenas de mortos nas madrugadas do último mês na cidade. A guerra civil entre criminosos e policiais não tinha limites e não parecia sequer ter ideais. A mulher não sabia de quem era a culpa naquela noite ou em qualquer outra, só sabia que um adolescente que morava duas ruas abaixo da dela fora baleado na sua frente. Era educado e trabalhava, ela nunca ouvira boatos de ele estar envolvido com droga -- com tráfico então ela sequer conseguia imaginar. Mas ele estava sozinho em seu portão, em seus últimos minutos olhando o luar.
       
Por que alguém mataria jovem sem indícios de má índole? Puro terrorismo, fascismo ou ele escondia mesmo segredos? Todo mundo queria saber, todo mundo queria investigar. De alguma forma ela era um ponto chave no direcionamento e fim dessa onda de terror e ela própria na fúria de suas lágrimas assustadas queria pegar o responsável por tal crime -- pois independentemente da posição social, assassinato é crime seja aqui seja em Guiné Bissau. Mas o saber e o opinar, que mesmo a uma mulher tão simples era de quase impossível acesso, valia tanto quanto a vida dela naquelas circunstâncias.
       
-- Você tem alguma suspeita de quem possa ser o culpado? Não viu a roupa, não viu nenhum fardo?
       
-- Não senhor, eu só ouvi o disparo
       
-- Não reparou em nenhum rosto?
       
-- Não senhor, só vi as sombras e depois o morto.

A mulher estava ilhada. Sua única opção era não saber de nada, responder algumas perguntas e então ir para casa. Para ela podia ser tanto policial quanto traficante, mas que diferença faria? Qualquer suspeita e sua cabeça seria a única que voaria, despencaria com tiros como o do jovem negro na calçada, mais um pescoço que sangraria. Mais uma morte qualquer que o jornal estamparia, nem mais na primeira página iria e seu nome o repórter ainda erraria. O crime já havia se tornado tão comum que entre morrer pela arma do bandido ou do militar, ela preferia ficar em silêncio e ir para sua velha cama na favela deitar e chorar.


3 comentários:

  1. Primeira vez que eu comento em um texto que nao é da Ceres aqui. É que esse realmente ficou muito bom. Aliás, ficou muito bom mesmo. Alias, eu me arriscaria em mandar pra algum jornal.
    Nem tenho o que comentar O_O achei que deveria porq gostei mto

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    1. Victor SEMPRE surpreendendo <3 Eu adoro o fato de ele fazer parte do blog!

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  2. Umas lindas vocês ): Obrigado :3 fiquei numa dúvida enorme se deveria ou não postar esse texto aqui por conta do teor social/político mas ainda bem que vocês gostaram <3

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