11/02/2013

O Patriota


Não sei o que dizer de tal estado em qual me encontro agora. Sinto-me preso em uma sujeira peculiar, desconhecida de toda uma maioria do mundo. É a sujeira da poeira do deserto que gruda em cada milímetro da minha pele e mesmo assim me sinto como se eu não pertencesse a outro estado. Estou sujo e seco, não vejo água há dias. Meus olhos já não mais se machucam com a aspereza dos ventos. Uma guerra vem aí, eles repetem.
           
Ela está no horizonte, eles dizem. Naquele infinito profundo no qual o alaranjado das areias se misturam aos fulgores do sol. O ar brilha radiante, uma névoa deserta cerca meu corpo que chegando ao ponto máximo de rubor aos poucos amorena-se. Meus poros cheiram ao suor do sofrimento, meus joelhos não cedem a nenhuma dor do momento. Se acostumam a cada dia e a cada dia se preparam para a batalha vindoura. Sinto o cheiro dela, eles dizem.
           
O sol jamais me deixa. A doença e a solidão invalidam minha alma lentamente enquanto ela luta para permanecer aqui por mais alguns dias, como se soubesse que é na batalha que devo morrer. Ela não quer me abandonar antes do tempo necessário, por mais que tal atitude me faça sofrer até o fim dos dias. Falta pouco, meu corpo consola a si.
           
Vejo imagens e gravuras de um passado que agora pertencem a outra vida minha. Quantas vidas fizera-se em alguns anos? Quantos fuis e qual sou? Sou aquele que caminha para o desconhecido. Sou o último: sou os pés do apocalipse. Sou o apocalipse individual que irá mostrar-me a mim o que é afinal aquela coisa da qual os poetas tanto falaram e os bíblicos tanto profetizaram. Não há importância o fim do mundo se você não chegará a o ver -- o fim do mundo afinal é quem se é.
           
Presenciei o fim do mundo inúmeras vezes, quase todos os dias, desde as rápidas passagens a hospitais até o mero comprar de um par de meias. As meias iniciariam uma nova história nos pés de um novo viajante, desempenhariam seu papel até um dia serem descartadas. Imagino que triste fim a meia que tem sua vida interrompida por não desgastar-se antes de seu dono... que lástima a meia enterrada viva.
           
Pois contenha-se. Os delírios do deserto já estão começando a dominar-me. Não sabes que uma meia não tem vida? -- mas por que a meia não tem vida? -- ora, não aprendestes isto na escola? Pois já nem me lembro mais o que é uma escola. Não sei mais o que guardei ou deixei de guardar dela ou de qualquer conhecimento que seja. De que me adianta retroceder toda minha vida se afinal ela sempre me levará a este cálido deserto? De que me adianta viver se já sei onde é meu fim?
           
Os verdadeiros guerreiros sempre sabem seu fim e nem por isso deixam de guerrear ou de amar suas famílias. Nunca deixam seu patriotismo -- patriotismo? você acha que realmente todos os soldados lutam pela nação acreditando nas razões pela guerra desta? -- pois o patriotismo não é onde se nasce mas o que se é: o patriota é o experiente que apegado às suas lembranças defende até o último os fragmentos que o tornaram o que se tornou -- mas e os fracassados de corpo, espírito e alma que nada mais sabem fazer a não ser se arrepender? -- não há arrependimento se não houver algo bom anterior ao ato gerador de tal sentimento. O arrependido é patriota das lembranças remotas, o arrependido é o historiador de si.
           
O historiador de si. Em meu diálogo delirante dentro da minha mente acabei por me perder e adormecer. Algumas frases entretanto não me deixaram quando finalmente abri os olhos para o fulgor que jamais me abandonava. Eu compreendia que afinal eu era um patriota, como todas as pessoas -- mas que pátria defendo? a que mim pertenço? que bandeira sou?
           
Sou meus últimos dias, que embaralhando-me em si acabo por descobrir coisas do meu ínfimo. Sou meu apocalipse e por assim o ser compreendo coisas que não me foram permitidas compreender até então. Minha testa ardia febrilmente enquanto eu via os soldados chegando. Em meu primeiro vislumbre dos bárbaros não tive outra reação senão me defender: defender algo que era eu. Meu primeiro olhar sobre o que até então eu não conhecia me fazia entender que eu acompanhava o fim como um defensor. Eu sou um patriota.


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