04/05/2013

Seja meu mecena

Oh meu amor, você não vê o quanto consigo tornar as coisas mais belas do que realmente são? Todos esses nomes que uso para te definir, todos os lugares onde costumo te levar... se tudo isso sumisse, você não acabaria pagando por alguém que trouxesse isso de volta? Veja, meu bem, eu sou tudo isso ao nosso redor: o vento soprando nas árvores, o tom que o sol traz à grama, a razão do seu despertar. Veja um pouco além, meu amor, tudo o que eu quero lhe mostrar.

Você não acharia triste se os planetas girassem apenas para ti e para mim? Acho que é por isso que você aceita o fato de eu não pertencer apenas a você. Somos doces mas jamais mereceríamos que o mundo fosse apenas nosso. Você me deixa compartilhar o universo com os outros e eu deixo que eles vejam o que eu vejo -- ou, ao menos, um pouco disso tudo. Mesmo assim, é tudo grande demais para ser compartilhado só com miseráveis como nós. O que devo fazer, que outra escolha eu poderia fazer senão fugir com esses meus olhos?

Seja meu mecena, querido. Não deixe, por favor, que esses sonhos que lhe mostrei caiam na miséria em direção ao inferno do esquecimento. Eu sei de cada centavo das suas contas no banco, aquelas sobre as quais você me conta quando foge da sua esposa para os meus lençóis. Jamais seremos apenas nós dois, mas sabemos que eu tenho -- por enquanto -- algo mais belo do que ela a oferecer. Você não gostaria de eternizar esse "por enquanto"? Não gostaria de manter essa minha juventude para sempre?

Eu fui malvado, eu sei, por contar cada moeda sua como um conto que eu ainda poderia escrever, como um leitor que ainda viria a me conhecer. Eu poderia fazer com que todos me amassem e assim você me amasse mais, assim, em segredo. Eu poderia ser um mundo também, brilhando lá em cima, com as crianças apontando para mim com um fascínio nos olhos.

Desculpe, mas agora você perguntou o que eu quero de presente. Disse que mereço muito mais do que geralmente peço. Meus outros dizem isso também. O que mais eu poderia querer, o que mais eu poderia pedir, quando tudo soa bobo e frio em comparação às nuvens de tinta? Pois eu peço, meu amor, em nome da leveza dos meus lábios, que façamos uma troca. Você me dá esse poder da abundância financeira, essa que tanto enojo em minhas mãos, cede só um pouquinho dela para investir em mim e nos sonhos que tenho e sou -- nas doces lembranças que lhe dou quando você fecha os olhos -- e eu lhe dou também um pouco do meu poder, esse de usar as palavras pra bagunçar artes, esse de eternizar nossos sentimentos de forma mais bela do que realmente são.

Eu faço voltar o renascimento: você me dá os contatos, financia minhas viagens, meu ócio planejado, e eu faço cada segundo valer a pena. Podemos entrar num acordo de mecenato e eu faço renascer cada flor que você esqueceu no outono da sua vida. Serei iluminista, usando minha inteligência e minha arte para um sorriso cósmico -- que mal haveria nisso? Seja meu mecena, querido, e o mundo jamais perderá sua beleza.



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