10/05/2013

Torre de Babel


O homem dobrou a esquina e entrou em uma outra avenida do centro. Desviava aqui e ali das pessoas que por ele passavam, não queria passar qualquer tipo de constrangimento ou vexame em meio a uma plateia tão grande. Independentemente do lado pelo qual caminhava, havia sempre uma sombra a acompanhá-lo -- uma sombra enorme, tornando escuro mesmo aquele dia tão ensolarado. Estava um calor dos infernos e o homem que não conseguia fugir da imensa sombra vestia terno, ele estava indo trabalhar. Estava atrasado e suado, não entendia muito bem porquê precisava usar aquela roupa num dia daqueles -- diziam que era para causar uma boa impressão, não aparentar ser uma pessoa desleixada, mas o terno não é a única vestimenta que denota classe no mundo. Mesmo que a questão fosse classe, qualquer pessoa naquele meio saberia que o homem não era rico -- afinal se fosse não estaria trabalhando atendendo as pessoas, principalmente em um lugar tão vagabundo quanto o centro da cidade. A quem ele precisava enganar então? A si mesmo?
                
Meia hora dentro ônibus e depois mais meia hora no metrô lotado, ele não entendia porquê aquele lugar era o único com grande número de possibilidades de emprego mesmo no novo milênio. Já não deveriam ter feito algo? Dado acesso às pessoas que não moram no grande centro comercial? Ele odiava aquele lugar sujo e cheio, ao mesmo tempo em que amava. Amava a enorme quantidade de coisas que se podia fazer ali mas odiava trabalhar ali -- ora, muita gente precisa trabalhar no centro para que ele tenha muitos recursos. O homem afinal era uma dessas pessoas, uma das peças que mantinham a metrópole em funcionamento.
                
Mas mesmo assim aquela nuvem negra não deixava sua cabeça. Uma nuvem que tinha muitos olhos e estava para todos os lugares em regiões como aquela: as empresas, os escritórios, as lanchonetes, as lojas, todas olhando o homem de cima espremidas em arranha-céus imundos e mofados que simplesmente brotavam pela cidade. Eles pareciam a cada dia maiores e mais imponentes, como se as construções não precisassem do homem para sobreviver -- afinal, elas precisavam? Aquelas vidraças que só eram limpadas uma vez por semana ou então por mês refletiam os poucos raios solares que se aproximavam da avenida, como se quisessem mostrar ao homem que apenas elas podiam ser banhadas por tais lumes. Quão abafado deve estar lá dentro, pensou o homem, e pensar que dentro de alguns minutos estarei entricheirado dentro de um desses. O sêmen do sistema, da burocracia, do capitalismo, do mundo moderno: o homem voltava todos os dias para dentro desse sêmen buscando crescer a si e assim fazendo o mundo crescer junto, como um bebê se fecundando gradualmente. Sentia-se cada vez mais como um escravo, comendo-lhe os neurônios reflexões infinitas do porquê o mundo moderno crescia sempre para cima e não para os lados.
                
Um país tão grande num continente tão grande num planeta tão grande e mesmo assim o desejo continuava, após milênios e milênios, de atingir apenas o céu. A sociedade parece sempre incapaz de se lembrar do que há aqui embaixo, no mesmo patamar em que ela está. Sempre querendo ser mais esbelta, deixando apenas sombras e sufoco sob si. Preso em sua rotina, o homem convencia-se cada vez mais de que afinal o progresso nunca passara de uma farsa, assim como a construção da Torre de Babel nunca deixara de ser tentada.


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