23/06/2013

Revolta da Tarifa: evolução dos protestos em São Paulo e novas tendências políticas


Compareci aos terceiro, quinto e sétimo grandes atos contra o aumento da tarifa do transporte coletivo em São Paulo -- e também no ato contra Marco Feliciano e a "cura gay".

No terceiro, fui embora quando vi que os manifestantes estavam começando a manifestar opiniões divergentes e discutir para onde deveriam ir, poucos minutos antes do ataque da Polícia Militar ao Terminal Parque Dom Pedro. Até então os manifestantes estavam sendo tratados pela mídia como milhares de baderneiros, como sempre aconteceu em se tratando de qualquer protesto nos últimos anos. No quarto ato foi quando um homem foi preso por porte de vinagre, duas pessoas foram atropeladas, jornalistas e repórteres foram atacados pela PM e por aí vai... OPA, peraí, a PM atacou a mídia, agora a porra fica séria! Afinal, a mídia era responsável por encobrir muita merda que os policiais já vinham fazendo mas, como ela própria foi atacada, agora seria a hora de mostrar a verdade à grande massa. E assim a Revolta da Tarifa explodiu de vez, com os manifestantes tendo agora a seu lado não apenas milhares de pessoas insatisfeitas como também a mídia! E assim chegamos ao quinto ato, que foi lindo.


 Andei como um condenado da estação Clínicas até o Palácio dos Bandeirantes. Nos dias compreendidos entre o quarto e o quinto ato muito se discutia a questão de nem todos os manifestantes praticarem vandalismo, sendo isso responsabilidade de apenas alguns deles -- maior parte, segundo afirmam, infiltrados. Após a indignação do povo quanto aos ataques da PM, a mesma não participou do quinto ato -- pelo menos até tentarem invadir o Palácio dos Bandeirantes. Era como bradávamos, "Que coincidência: não tem polícia, não tem violência!". Foi a noite mais pacífica e mais linda de todas! Aliás, nessa mesma noite passamos em frente a Rede Globo e a vaiamos -- e soube que na mesma noite ela se defendeu da forma como havia tratado os manifestantes até então e mimimi. Andei até meia noite seguindo o protesto procurando qualquer estação de metrô ou indício de lugar onde pudesse passar ônibus para ir embora -- e muita gente ao meu redor fazia o mesmo. Nos dispersamos na região do Palácio dos Bandeirantes, quando descemos em direção a Francisco Morato com dois helicópteros sobrevoando nossa cabeça, centenas de policiais em motos e viaturas ao nosso redor e sons de bombas às nossas costas. A partir daquela noite, vi bastante na mídia a separação entre "a maioria dos manifestantes" e "uma minoria praticante de vandalismos".

Mas o que aconteceu para os vândalos se acalmarem assim tão de repente? Bom, logo em seguida, no sexto ato, houve tentativa de invasão da Prefeitura de São Paulo e várias lojas do centro da cidade foram saqueadas. Enquanto isso, com o apoio da mídia e declarações de políticos dizendo também apoiar as manifestações, nosso número aumentava inacreditavelmente! Desde o quarto ato o número de cidades que aderiam a Revolta, não apenas dentro como também fora do país, só crescia, assim como também as organizações de todos os tipos. Isso obviamente tocou a todos nós, esse tom de revolta nacional!

E é claro que há sempre alguém pra se aproveitar disso. Aqui em São Paulo o sétimo ato já havia sido marcado quando anunciaram que a tarifa voltaria a seu preço normal. Fomos à rua mesmo assim. Como dizemos "não é só por 20 centavos... é por todas as coisas nas quais esses 20 centavos não serão investidos" -- com a conquista dos 20 centavos revogados, está na hora de lutar então por todas as coisas que têm sido abandonadas para que nosso dinheiro seja roubado e/ou investido com gastos desnecessários para a Copa do Mundo. Mas como eu digo, há sempre alguém pra se aproveitar. Desde que a mídia decidiu se envolver assiduamente na Revolta, inúmeras pessoas têm sido atraídas a ela justamente pela mídia -- para poder simplesmente dizer "eu estive na Revolta da Tarifa" ou tentar aparecer na TV ou nos jornais ou conseguir vários likes no Facebook. Daí surgem os ambulantes vendendo água, comida... e surgem pessoas até bebendo no meio do protesto, como se fosse rolê!


A Revolta tem se tornado cada vez mais confusa desde então. Para frear o oportunismo que tanto tem crescido nos protestos, inúmeros manifestantes começaram a vaiar qualquer bandeira que se apresentasse, visando manter o cunho de "união" do protesto e não de propaganda. Isso tem causado brigas. O sentimento de nacionalidade tem fortificado o patriotismo do povo, bastante apoiado pelos nacionalistas. Os partidários, por sua vez, com bandeiras vermelhas que trazem em suas histórias militância de décadas, não têm gostado disso -- o que acho compreensível. O que não acho compreensível é sair entregando papeizinhos a tudo e a todos convidando o povo a se unir aos partidos -- coisa que aconteceu no sétimo ato.

Na internet, a briga entre o nacionalismo antipartidário e o partidarismo tem se tornado cada vez mais evidente. Com a conquista da revogação do aumento da tarifa, até mesmo o Movimento Passe Livre parece ter suas dúvidas de por que caminho seguir -- enquanto os protestos continuam acontecendo por diferentes causas, tendendo a perder-se em incontáveis nichos ideológicos. Quem perde com isso é a união tão linda que o povo brasileiro vinha conquistando nos últimos dias. Quem ganha é qualquer pessoa que tenha interesses políticos. No sétimo ato os gritos de "sem violência" dos pacifistas não demoravam muito tempo para serem abafados por uma multidão em fúria. Mesmo que a grande massa popular debande nas próximas semanas, os conflitos entre os movimentos políticos têm se tornado cada vez mais calorosos. Na minha opinião, resta ao povo ter a sabedoria suficiente para se desvencilhar dos interesses que vêm nos atacando de todos os lados e conseguir não apenas nossos direitos como também impedir que uma guerra civil e/ou uma nova ditadura se instale no Brasil.

Afinal, se formos parar para pensar, cada tipo de manifestante teve sua importância para a explosão da Revolta: a violência da PM e a divulgação da mídia, o vandalismo dos radicais causando choque no Estado, o respeito conquistado pelos pacifistas, os "curiosos" indo apenas pela mídia ajudando a aumentar o número de apoiadores, e por aí vai. A questão é: será que não há, quase às escondidas, pessoas mais poderosas que nós que também têm noção da importância e função de cada "tipo" de militante? Será que todos estão mesmo lutando por uma causa coletiva de forma única -- ou será que há aqueles que estão lutando por uma causa individualista de várias formas diferentes?

[Ps- Há muita coisa que preciso dizer sobre os protestos e acredito que esse foi apenas o primeiro de vários posts que eu ainda acabarei fazendo sobre o assunto. Isso explica o porquê de eu ter começado explicando sobre São Paulo. Sei que muitas outras cidades ainda lutam fervorosamente pela revogação do aumento da tarifa e as apóio, não nos esquecemos de vocês. Sei também que o governo continua atacando ferozmente em outras partes do país. Mas, após conversar com uma amiga minha do Rio de Janeiro, percebi que esse "fluxo" todo sobre o qual falei ao longo do post tende a se repetir nas outras cidades -- por isso, primeiramente, achei melhor relatar sobre o que está acontecendo onde eu moro, que é muito mais fácil ter acesso a informações verdadeiras. Qualquer relato que vocês, leitores, tenham sobre suas participações nos protestos de suas cidades, é uma honra recebê-las.]

Um comentário:

  1. Lo que pasa es que ... direita e esquerda juntas, marchando, a esquerda tendo que ocultar suas bandeiras? Mais de um milhão de pessoas nas ruas, 90% de direita? Era pra isso mesmo? Pra dar o poder à direita e angariar migalhas de poder pra esquerda emergente, que foi quem de fato organizou as 'revoltas' (no site dos partidos vem como revolta mesmo, o que mostra que a intenção inicial não era pacífica). Erro de cálculo ou vontade de abocanhar o poder a todo custo, mesmo podendo gerar instabilidade crônica e estragar, com uma inflação cíclica, por exemplo, o trabalho de 10 anos que tirou 40 milhões da miséria total e deu acesso a vários benefícios sociais a outros tantos milhões? Tentar burlar na base da revolta a vontade das urnas em 2010, ou antecipar campanha pra 2014?
    Tiro no pé, com certeza: apesar do medo das radicalizações de lado a lado, a Globo, PSDB, VEJA, Istoé e todos estão comemorando! Bravo!

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