11/07/2013

E eu sofri


- Eu vim correndo, porque precisava te ver.

Chovia muito. Eu estava com o vestido, os cabelos e o sapatos encharcados. Você abriu o portão, e me olhou estarrecido.

- Meu Deus, entra.
- Não.
- O que está acontecendo?
- Eu te amo.
- O que?

Eu abraçava meu próprio corpo, sentindo a água escorrer pelo rosto, me impedindo até de abrir o olhos e falar com clareza. A única luz que havia ali era a do poste. Amarela, fraca. Piscava. Por ter subido a sua rua correndo, além do coração que saltava e a sensação forte na boca do estômago, eu mal respirava. Fiquei os olhos fechados por uns segundos, para ver se a aflição passava.

Te olhei e você estava boquiaberto, com as mãos apoiadas no marco do portão, as sobrancelhas arqueadas, os olhos em mim. Comecei a sentir uma certa vergonha por ter feito aquilo. Queria que algo me tirasse dali, e que eu simplesmente estivesse em casa. Mas não é do meu feitio deixar as coisas pela metade, então...

- Você entendeu. - eu disse, com certa veemência.

Nos olhamos por algum tempo. Você titubeou, parecendo que não sabia o que fazer com aquele 1, 59 de pura loucura. Mas veio na minha direção, desceu o meio fio e me abraçou por cima dos meus braços. Senti o quanto estava quente, e me lembrei de como gosto do seu cheiro. Depois, nós dois estávamos frios, molhados. Passei meus braços em sua volta. Encostei minhas têmporas no seu peito, mas não ouvia nada ali. Era só meu coração que sambava, duro, dolorido dentro do meu peito. O seu, era silêncio. Estremeci.

Usando as duas mãos, você levantou o meu rosto e me olhou dentro dos olhos. Mas esse olhar foi facada, não consegui retribuir. Eu não via o que queria nos seus olhos. Tentei te fitar, mas desviei. Senti você me beijar a testa, e me abraçar de novo. Depois senti a barra do meu vestido levantar. A chuva havia parado, e ventava frio.

Você me libertou do cárcere do seu abraço, e eu sofri. 

- Vem cá, deixa eu te levar pra casa. Tá tarde.
- Tudo bem.

Seu braço veio por cima do meu ombro da sua casa até a minha. Vim arrastando os pés, e senti que havia deixado um rastro de sangue por onde passamos. Quando fomos nos despedir, ainda via aquela pontada de misericórdia nos seus olhos, e desviei outra vez.

- Se cuida, fica bem.

Esbocei um sorriso, e entrei sem dizer mais nada. Nada mais que eu quisesse.

5 comentários:

  1. Emocionante, não dá para ler apenas uma vez!

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  2. Senti uma pontada de sofrimento mocinha! Cabeça erguida! Vamo lá!

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    1. Mas esse é o nome do texto! haha Vamos, vamos!

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