20/07/2013

Por que você não volta, Júlio?

Nós demos a corda a eles e como numa ópera eles a enroscaram no próprio pescoço. Um julho sangrento, um Júlio sangrento, um Júlio suicida. Eu poderia culpar as drogas que você usava, eu poderia culpar as drogas que você traficava, mas eu saberia no meu pequeno pedaço fantasma, o pedaço de você que continua em mim e que permanecerá eternamente de luto, que isso não seria bem a verdade. Eu ainda saberia que fomos nós que o matamos.

Por alguma razão eu tive medo de me aproximar enquanto ainda havia tempo, por alguma razão eu apenas fiquei escutando de fora, atuando em um cenário próximo, vez ou outra ouvindo um eco que chegara do seu campo de atuação ao meu. Vez ou outra eu via uma fotografia sua, notava que eu estava ficando mais alto, notando que eu estava ficando maior; só não notei que enquanto eu crescia, você diminuía. Você definhava enquanto aparentava estar melhorando. Oh Júlio, por que tiveste que ir agora? Haveria algum sinal nessa sua partida repentina, nesse choque que você supostamente escolhera deixar para trás?

Eu queria que você tivesse me procurado. Não para dar um aviso, não para alertar sobre uma possível viagem a um negrume desconhecido; queria que você tivesse me dito apenas o que estivesse sentindo. Eu queria ter sido seu amigo, pois me agoniza pensar que posso ter sido um dos móveis no seu quarto que apenas assistiram à sua queda, eu me sentiria melhor sendo o papel ao qual você confidenciara suas últimas vontades ou o último caixão de madeira ao qual você repousara. Talvez eu gostaria de pensar que posso ter sido seu último amigo.

Mas esse é o único problema da morte: notarmos o que poderíamos ter feito e não fizemos; imaginarmos quais foram os últimos pensamentos, as últimas sensações, os últimos sentimentos do corpo enquanto ainda vivo; pensar em quanto tempo será que se passaram os últimos segundos, como fora que as engrenagens pararam de funcionar de repente... e o simples fato de imaginar já pára tudo. As coisas se movem mais devagar e a gente fica sem reação, como se a nossa parte que pertencia àquela pessoa tivesse levado um choque e instantaneamente apreciasse uma inconsciência enquanto o corpo permanece de olhos abertos. Todo o resto entra em processo de luto.

Júlio, meu caro, você parece ter tocado as mais profundas proporções às quais o que vive dentro de mim é capaz de chegar. Feche seus olhos e permita que as minhas profundezas toquem as suas e sintam a coisa em que se tornou, se for uma coisa. Se não for, me mostre como é essa luz ou essa escuridão na qual você vagueia, a menos para que eu saiba que mesmo morto você ainda vive bem. Sei que não foi você quem lhe matou, mas Júlio, se passares por mim em algum momento nessas grotescas entradas do multiverso, por favor, me pare nem que seja para um cumprimento, nem que seja apenas para um "oi". E, quem sabe, nosso espíritos poderiam pela primeira vez tomar um drinque juntos!


[ Nota: Já pensei inúmeras vezes em me matar e conheço outras pessoas que idem. Dois anos atrás, especulava-se que a Amy (Winehouse), morta em julho, haveria se matado; no mesmo mês do mesmo ano, um garoto da minha escola também se matou. Recebi a notícia de ambos na mesma noite e foi um choque. Alguns dias depois escrevi esse texto. Espero que eles estejam bem e que nós sejamos humanos menos miseráveis, tornando o mundo um lugar melhor e dando motivos para que as pessoas queiram viver e não morrer. ]

Um comentário:

  1. Caramba, Vitu <3 Esse texto <3 Não me lembrava de ele ser tão lindo e sincero <3 Sei que Julio sente isso, e é feliz.

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