27/07/2013

Torre de marfim

Eu deveria perder menos tempo escrevendo livros e mais tempo escrevendo testamentos. Muitos anos perdi tentando me livrar do fantasma dessa dor e transformar tudo em arte. Minha vida, meu redor, meus sentimentos e pensamentos. Tentei dar beleza a esses tormentos. Infelizmente, porém, nem os melhores dos recursos escondem quando um artista é demasiadamente ruim. Pintei com cores e palavras bonitas e nem por isso a depressão teve fim.

Essa arte malfeita é tudo o que me resta agora. Preso na escuridão, esse negro da tinta é minha caneta que chora. Não adianta enfeitar as coisas quando nossa vida não melhora. Rodei, rodei e tudo continua igual. Sozinho em casa, permito que dos meus olhos minha língua experimente o sal. Deixo tudo escorrer enquanto ainda não posso correr. Ou morrer.

Muito eu falei e bradei mas com o tempo já me esqueço novamente o porquê de estar aqui. A arte ainda não tem um sabor muito mais doce do que outras mentiras que já ouvi. Talvez seja para combinar comigo essa amargura. Logo eu que em delírios de desespero desejei provar alguma coisa pura. Acho que a pureza é mesmo assim feia e por isso tanto essa angústia me incendeia.

Agora que eu finalmente alcancei o dom de ver a beleza na alegria e na tristeza, vejo que isso não basta. Não me trouxe nada além de lembranças e farsas. Mas eu demorei tempo demais para ver o quão ridícula é essa minha razão de viver -- não menos ridícula que qualquer outra. A quantidade de bens que pode me fazer é pouca. Na melhor das hipóteses me tornarei apenas mais um louco exilado, numa torre de marfim, ilhado, por tudo e por mim.

Me chateio com os deuses. Me sinto uma pessoa boa e não consigo imaginar o que fiz em meu destino que me tornasse merecedor de toda essa solidão, ou, pior ainda, da longevidade dessa minha visão. Eu não queria saber antes de tudo o que iria acontecer. Nem poderes para mudar as coisas eu pude ter -- se tivesse, talvez o futuro eu não soubesse. Me sinto único, mas não de uma forma atraente. De que serve isso no meio de tanta gente? Por que este mundo então, se não me é dado o direito de ser como qualquer outro? Devo abrir mão de tudo o que sei e me alienar como todo mundo faz? Ou, essa bagunça que sou, é um sinal de que devo de fato ir pra minha torre de marfim, cuidar só de mim, ir em busca da paz?

Se assim o for, não sei de que me adiantou tanto ver ou pintar o belo do mundo se, passado esse calor, não poderei o ter e minha alma escreverá mais um livro que permanecerá mudo, no meio de tantos outros, imundo.


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