06/08/2013

Inferno

É o ruído do metrô, a vibração do ônibus, a convulsão da minha cabeça, são gritos, sou eu. O inferno. É a queimação do que eu poderia transformar em racional, do que eu poderia transformar em surreal, do que eu poderia transformar em felicidade. É me vomitar para dentro e sufocar em todas essas noites solitárias. Desejar a sombra que me tortura enquanto luto para me libertar dela, ir em direção a um horizonte límpido e desconhecido sem um porquê. A sombra é conhecida, a escuridão é desde e para sempre presente, o breu é a segurança.

Eu agonizo, eu danço como um satanista dentro de mim, a morte nunca chega. Nada nunca chega. O terror é infinito. O inferno. É aqui. Meu pecado amargo. A dança voluptuosa da dor, as luzes apagadas por trás dos meus olhos. Dormir para sempre. É isso. O inferno. Dormir para sempre: acordado. Nunca estar ciente o suficiente, ciente o suficiente para perder a razão. Para ser máquina como qualquer um, ser feliz, ser massa, ser massa infeliz. Eu tenho que correr -- para quê? -- correr até o fim que nunca chega correr desesperadamente correr pela minha vida e se tropeçar e me despedaçar e cair mesmo assim devo correr e correr mesmo que me esfole devo correr mesmo que eu me torne carne viva correr devo correr porque tem algo atrás de mim correr nunca parar de correr correr é para a vida para correr tentar achar essa coisa correr essa coisa que chamaram de viver essa é a resposta correr para tudo correr e correr até morrer e mesmo assim continuar correndo. Correr. Nunca parar de correr. Tem algo atrás de mim -- mas o quê? Devo correr, só sei disso.

A qualquer momento os demônios podem me pegar ainda mais terrivelmente do que já pegam -- o quê? -- correr correr sem pensar só isso correr correr na escuridão ser torturado sem se submeter à tortura correr até enlouquecer porque só assim se chega a algum lugar correr corra do zumbido, corra, corra, esse eco, essa voz que me diz pra fazer alguma coisa com essas pernas, ser alguma coisa com essa capacidade de ser alguma coisa, pega esse eco e corre pra salvar -- o quê? Correr. Chorar oceanos de lágrimas no meu breu enquanto sapateio e acima de tudo corro, morro, mas continuo mesmo na miséria intelectual financeira emocional miséria total, correndo mesmo após a percepção do tamanho da minha mediocridade que nem é tão maior que a dos outros assim. Mas eu choro enquanto corro e corro enquanto choro porque não quero ser devorado não quero ser devorado como qualquer um e virar massa no estômago do monstro correr é isso que devo fazer correr e a resposta está aí. O ciclo eterno. Correr para sobreviver, nunca chegar a lugar nenhum. Correr, Morrer.


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